Parque Natural da Madeira

 

Vigilante das Ilhas Desertas

Diário de José Manuel Pestana

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Inúmeras recompensas nos aguardam, bóias de plástico e de metal, madeiras e troncos das mais variadas formas e feitios oriundos de todas as partes do mundo, de tudo um pouco, um regalo à vista, um hipermercado de brinquedos por explorar. Indiscriminável. Mas o verdadeiro prémio não fora entregue no pódio de um árduo dia de trabalho. De regresso à Doca a voz do chefe Fernando Vieira pronuncia silenciosamente, apontando com o dedo, “olha ali um Lobo”. Ali estava o prémio... um Lobo-Marinho mergulhava indiferente ao olhar obcecado de três vigilantes, caçava alheio moluscos e crustáceos, na Ponta do Furadinho. A esperança moribunda de vir a ver um Lobo ressalta cheia de força dentro de mim num efeito sedativo e estonteante, transformando-se num momento único e real. Surge outro vulto... eis o milagre, dois Lobos-Marinhos caçam indiferentes à nossa presença e ao ruído do motor que entretanto deixara de soar. Mergulham... surgem... fixam-nos, voltam a mergulhar e desaparecem como que para sempre. Cheguei a desejar-lhes mil sortes e uma vida longa como se entendessem o meu pensamento. Adeus Lobos e perdoem todas as nossas atrocidades, perdoem os massacres que sofreram, absolvam tudo o que os Homens já vós fizeram, perdoem a nossa ganância! Como se lhes fosse tão simples perdoar! E ficou, para sempre, uma imagem gravada na minha mente, dois Lobos que caçavam na Ponta do Furadinho alheios à minha presença, ao pôr de um sol registado numa fotografia. Nessa noite os pequenos ratos abundantes não seriam os responsáveis pelos momentos de insónia, mas sim uma imagem perpétua de dois Lobos cinzentos, indiferentes que desapareceram debaixo de um vermelho pôr-do-sol.

A meio da manhã três vigilantes sobem ao topo da Deserta Grande, a maior e a mais alta das três Ilhas. Deslumbrante! Os seus quase 12 km de comprimento escondiam as paisagens mais belas e os pormenores mais bem concebidos pela natureza que poderia ter visto até hoje! O percurso desde a Doca até à zona sul da Deserta pelo topo ocupará uma tarde escaldante. Um oceano semi desértico cobre-nos a vista. O verdadeiro contraste, o oposto do mar azul. Dunas de terra avermelhada decoradas com rochas, algures aqui e acolá plantas ressequidas pelo sol como que pedindo auxílio captam um momento de reflexão. No cimo da Deserta Grande sentimo-nos donos do mundo. Uma aventura pela zona do Risco vem condimentar pimentosamente a aventura dos vigilantes, contrariando sintomas de vertigens aguçando os sentidos, transformando-nos em animais selvagens que sempre viveram no meio de tais falésias. Continuam as histórias dos vigilantes sobre as batidas aos extintos coelhos e às cabras largados em épocas remotas da colonização, responsáveis pela devastação da aflita vegetação da Ilha. Oiço atenciosamente sem perder um só pormenor.

 
   
       
       
       

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Copyright João Olival & Paulo Roldão, last update: terça-feira, 07 de Fevereiro de 2006.