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Inúmeras recompensas nos aguardam, bóias de plástico e de
metal, madeiras e troncos das mais variadas formas e feitios oriundos de
todas as partes do mundo, de tudo um pouco, um regalo à vista, um
hipermercado de brinquedos por explorar. Indiscriminável. Mas o
verdadeiro prémio não fora entregue no pódio de um árduo dia de
trabalho. De regresso à Doca a voz do chefe Fernando Vieira pronuncia
silenciosamente, apontando com o dedo, “olha ali um Lobo”. Ali estava o
prémio... um Lobo-Marinho mergulhava indiferente ao olhar obcecado de
três vigilantes, caçava alheio moluscos e crustáceos, na Ponta do
Furadinho. A esperança moribunda de vir a ver um Lobo ressalta cheia de
força dentro de mim num efeito sedativo e estonteante, transformando-se
num momento único e real. Surge outro vulto... eis o milagre, dois
Lobos-Marinhos caçam indiferentes à nossa presença e ao ruído do motor
que entretanto deixara de soar. Mergulham... surgem... fixam-nos, voltam
a mergulhar e desaparecem como que para sempre. Cheguei a desejar-lhes
mil sortes e uma vida longa como se entendessem o meu pensamento. Adeus
Lobos e perdoem todas as nossas atrocidades, perdoem os massacres que
sofreram, absolvam tudo o que os Homens já vós fizeram, perdoem a nossa
ganância! Como se lhes fosse tão simples perdoar! E ficou, para sempre,
uma imagem gravada na minha mente, dois Lobos que caçavam na Ponta do
Furadinho alheios à minha presença, ao pôr de um sol registado numa
fotografia. Nessa noite os pequenos ratos abundantes não seriam os
responsáveis pelos momentos de insónia, mas sim uma imagem perpétua de
dois Lobos cinzentos, indiferentes que desapareceram debaixo de um
vermelho pôr-do-sol.
A
meio da manhã três vigilantes sobem ao topo da Deserta Grande, a maior e
a mais alta das três Ilhas. Deslumbrante! Os seus quase 12 km de
comprimento escondiam as paisagens mais belas e os pormenores mais bem
concebidos pela natureza que poderia ter visto até hoje! O percurso
desde a Doca até à zona sul da Deserta pelo topo ocupará uma tarde
escaldante. Um oceano semi desértico cobre-nos a vista. O verdadeiro
contraste, o oposto do mar azul. Dunas de terra avermelhada decoradas
com rochas, algures aqui e acolá plantas ressequidas pelo sol como que
pedindo auxílio captam um momento de reflexão. No cimo da Deserta Grande
sentimo-nos donos do mundo. Uma aventura pela zona do Risco vem
condimentar pimentosamente a aventura dos vigilantes, contrariando
sintomas de vertigens aguçando os sentidos, transformando-nos em animais
selvagens que sempre viveram no meio de tais falésias. Continuam as
histórias dos vigilantes sobre as batidas aos extintos coelhos e às
cabras largados em épocas remotas da colonização, responsáveis pela
devastação da aflita vegetação da Ilha. Oiço atenciosamente sem perder
um só pormenor.
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