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Seguindo viagem e à medida que avançávamos, menos vontade tinha de
continuar, apetecia ficar por ali mesmo, ignorar o tempo e satisfazer a
curiosidade até a fartar, tudo ali exala pureza, perfeição, candidez e
inocência. Não consigo empregar um adjectivo que caracterize, e que me
satisfaça plenamente, o encanto iminente do topo da Deserta Grande. Um
outro grupo de quatro cabras espavoridas gracejam, num jogo suicida,
saltando pelos penhascos. Até parece que voam!
O
dia está a chegar ao fim, o mais certo é chegar à doca já de noite.
Estou consciente de que as próximas horas serão investidas nos momentos
que vivi durante o fascinante dia de hoje. Um momento de tristeza
apodera-se do meu pensamento. Constantemente me interrogo se alguma vez
terei a oportunidade repetir uma experiência como esta, nestas
maravilhosas Ilhas. A estadia está a terminar, surge-me a terrível
sensação de que tudo o que faço é pela última vez. Nem acredito que tudo
o que vi, tudo o que vivi, os dois lobos cinzentos debaixo do pôr do
sol, as barbatanas dos tubarões sob a superfície do mar, as correrias
das cabras bravias, o bode rei da montanha, o pio nocturno das cagarras
e dos Roques de Castro na doca, tudo o que nunca tinha visto antes,
fazem a partir de agora parte do passado. O cansaço toma conta da
situação.
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