3.3.3.3.A identificação de pro em [D+AP+pro]

Vejamos agora as condições de identificação de pro neste tipo de estrutura.

3.3.3.3.1.Elipse e simetria

Retomando as observações anteriores, em que se conclui que os adjectivos intransitivos são sistematicamente especificadores de projecções funcionais, podemos adiantar que a presença na construção [D+AP+pro] de um elemento com significado partitivo --como é sugerido na bibliografia-- não é necessária. Em alternativa afigura-se que, nas construções [D+AP+pro], a característica comum a todos os adjectivos legitimadores de nomes vazios é aquela que caracteriza em geral os adjectivos de qualidade, atribuidores de propriedades: estes adjectivos partilham o facto de poderem referir entidades discretas ou propriedades discriminativas relevantes a nível cognitivo ou pragmático. Os adjectivos que podem ser seguidos de nomes vazios são presumivelmente ordenados segundo um critério epistemológico: a propriedade que denotam corresponde a entidades ou propriedades características do nosso conhecimento do mundo. Para as línguas naturais, as propriedades mais relevantes em termos culturais e cognitivos incluem a cor, o tamanho, a idade, a distância, o valor, etc. Os adjectivos que atribuem essas propriedades são por isso geralmente antinómicos. Os adjectivos atributivos com propriedades discriminativas que se combinam com a elipse do nome devem expressar estas noções relevantes em termos cognitivos. Retomando o conceito de quantificador discreto, devido a Lopes, e estabelecendo um paralelo entre aqueles quantificadores e as propriedades destes adjectivos, proponho-me designá-los como adjectivos discretos. Por exemplo, o conjunto genérico de livros, no qual são incluídas todas as entidades que correspondem à intensão de livro, pode ser dividido em conjuntos ordenados de livros interessantes e aborrecidos, caros e baratos, etc. Sendo assim, não só os adjectivos estritamente partitivos, mas também adjectivos como inteligente, interessante, vegetal, magnífico, americano, podem ser considerados como legitimadores de nomes vazios, desde que o contexto da elipse seja suficientemente discriminativo, o que acontece particularmente em frases marcadamente simétricas:[84]

(136)
a. As eleicões legislativas e as [e] autárquicas este ano coincidem
b Os veículos solares e os [e] eléctricos anunciam os carros de amanhã
c. Les maladies congénitales et les [e] virales sont en augmentation constante
d. La religion chrétienne n'a jamais fait bon ménage avec la [e] musulmane



O mesmo efeito pode ser evidenciado com adjectivos que pertencem ao vocabulário técnico ou científico da taxionomia. Nos seguintes contextos, típico das definições de dicionário, verifica-se que a elipse do nome é sistemática com qualquer dos tipos de adjectivo referido, inclusive com os adjectivos formados com nomes próprios:

(137)
a. Ces bactéries qui vivent à 95º, on les appelle les [e] thermophiles
b. L'ère géologique qui précède la nôtre est la [e] terciaire
c. As teses em conflito no sistema educativo norte-americano são a [e] criacionista e a [e] evolucionista
d. A história da filosofia mostra que as ideias platónicas estão em contradição com as [e] aristotélicas
e. De tous les styles préhistoriques, le [e] neanderthalien est celui qui est le moins illustré dans les peintures pariétales


Como estes exemplos sugerem, os adjectivos especializados, relativos a termos técnicos, históricos, metodológicos, etc., como thermophile, criacionista ou neanderthalien acabam por se confundir, quando são associados à elipse do nome que modificam, com o que tradicionalmente é designado de nominalização do adjectivo: uma expressão como os deficientes ou os reformados adquire a capacidade de referir directamente, porque o antecedente do nome vazio está associado a conteúdos relacionados com o nosso conhecimento do mundo, e pode ser logicamente identificado com determinado grupo, tipo, saber, corrente, autor, etc. A taxionomia técnico-científica é bastante propícia a este tipo de construção. Notável é o facto de todo o processo assentar num mecanismo de legitimação formal e identificação de um nome suprimido contextualmente.
Nenhum dos exemplos em (136) e (137) me parece ambíguo ou marginal. Num contexto menos favorável, sem coordenação ou simetria pronunciadas, em circunstâncias que não permitam o efeito de catalogação referido, o poder discriminativo do adjectivo discreto poderá ficar comprometido. É o que acontece em situações de relação anafórica entre um nome deslocado para o início da frase e o nome vazio em posição básica: como se vê a seguir, o mesmo adjectivo deixa de ser bom quando não é ligado a um contexto suficientemente simétrico, mas é gramatical quando o contexto é enriquecido, por exemplo em frases coordenadas:

(138)
a. * Destes carros, vou comprar o [e] eléctrico
b. * Dos livros escritos pelo Saramago, só gosto dos [e] interessantes

c. Destes novos veículos com energias alternativas, penso que o [e] eléctrico é o mais promissor
d. Os livros aborrecidos, nunca os lemos na íntegra, mas os [e] interessantes, chegamos ao fim sem dar por isso.


Não deixa de ser notável o facto de a própria estrutura sintáctica da frase em que a elipse do nome está inserida obedecer a algumas características formais, como a coordenação frásica. No mecanismo da elipse aqui adoptado, considero que qualquer adjectivo, independentemente do seu valor semântico, pode legitimar um nome vazio, desde que o DP em que está inserido implique alguma forma de coordenação.
[88] Com efeito, a possibilidade de haver elipse, neste tipo de exemplos, depende de uma coordenação de constituintes, que parece ser condição de recuperação da informação contextual. A recuperabilidade é uma condição para a identificação do conteúdo da categoria elíptica. A elipse é um mecanismo que mantém com o contexto local uma relação estreita: genericamente, só é possível em condições favoráveis, quando a informação é coerentemente estruturada, isto é, simétrica. A identificação da elipse equivale a delimitar um contexto no qual as informações contextuais são suficientes par poderem ser verificadas e para não se estar a produzir ambiguidade. [89] Essa verificação só é possível em configurações sintácticas em que existe coordenação entre a estrutura que contem a categoria elíptica e a que contem o antecedente que a identifica. A identificação da elipse por um antecedente específico implica por isso simetria estrutural entre duas expressões.
A relação entre a possibilidade de suprimir um nome e a coordenação pode ser evidenciada mais rigorosamente. De acordo com Bosque & Picallo, em exemplos como (103.a), aqui citado de novo em (139.a), haverá que distinguir entre coordenação de DPs e coordenação de adjectivos. Os dois termos da coordenação podem ou não ser antecedidos de um determinante. No primeiro caso, há elipse do nome do segundo DP. Esta distinção é também ilustrada nos dois exemplos em Português. Note-se que, apesar de não haver elipse em (139c), uma restrição de tipo lexical existe: os dois adjectivos devem manifestar um paralelismo semântico, caso contrário não podem ser coordenados (139d):
[90]

(139)
a. Las incursiones aéreas e las [e] terrestres
b. As manobras marítimas e as [e] aéreas
c. As manobras marítimas e aéreas
d. * As manobras marítimas e diárias


A coordenação, nestes casos, implica não só condições de identidade estrutural --devem ser dois adjectivos--, mas também condições de identidade lexical --devem ser lexicalmente simétricos:
[92]

(140)
a. As escolas primárias e as secundárias
b. * As escolas primárias e as antigas
c. As escolas primárias e secundárias
d. * As escolas primárias e antigas


Casteleiro (1978) nota o mesmo tipo de contraste entre os adjectivos predicativos e os não predicativos: estes dois tipos não podem ser coordenados entre si, como mostra (141a). Faço notar que a referida coordenação também é impossível em caso de elipse do nome:

(141)
a. * Engenheiros competentes e electrotécnicos
b. * Os engenheiros competentes e os [e] electrotécnicos


Crucialmente, (139b) e (139c) --e também (140a) e (140c)-- não são de significado equivalente. A coordenação de DPs implica dois referentes distintos, enquanto a coordenação de adjectivos implica uma única referência com duas propriedades, o que origina algumas frases marginais:

(142)
a. As manobras marítimas e as [e] aéreas tiveram lugar em dois dias diferentes
a. ?? As manobras marítimas e aéreas tiveram lugar em dois dias diferentes
c. Na conferência sobre o ambiente, os países pobres e os [e] ricos sentaram-se frente a frente
d. ?? Os países pobres e ricos sentaram-se frente a frente


Haverá que notar que os adjectivos que, nas Línguas Românicas, podem ocupar a posição pré-nominal ou pós-nominal, conforme sejam apositivos ou restritivos (Casteleiro 1978, Crisma 1995), legitimam a elipse do nome desde que inseridos numa construção simétrica, independentemente da sua posição relativamente ao nome. Faço notar no entanto que os adjectivos discretos, em princípio pós-nominais em Português e em Francês, podem também ocupar uma posição pré-nominal, mas que essa posição não retira crucialmente a estes adjectivos a capacidade de legitimarem nomes vazios, como os exemplos seguintes mostram:

(143)
a. A etapa anterior e a seguinte são as mais difíceis
b. A anterior etapa é mais difícil que a seguinte
c. Comprei a casa antiga e também a nova
d. A antiga casa do João era mais bonita que a nova


A generalidade dos casos citados anteriormente implicam, entre outras coisas, que a elipse do nome pode ocorrer quando o nome suprimido é coordenado a outro constituinte com a mesma categoria e o mesmo nível sintáctico. Nessa hipótese, a elipse de um núcleo Nº só será tolerada se o seu antecedente for um núcleo Nº, e um NP vazio, em que o núcleo e os seus complementos são nulos, não poderá ser legitimado se o antecedente categorial não tiver a mesma estrutura sintáctica. Contudo, o contexto seguinte mostra que, se o constituinte elíptico não corresponde a um constituinte simétrico no DP antecedente, a elipse do nome não deixa de ser boa, embora seja marginal em alguns casos:

(144)
a. O livro de Francês e o de Português
b. O livro de Francês e o que comprei ontem
c. ? O livro antigo e o de matemática
d. ? O livro de Francês e o novo


Como estes exemplos indicam, a identidade categorial entre elipse e antecedente não parece uma restrição forte, o que implica que não é preciso uma absoluta simetria sintáctica entre o antecedente e o DP elíptico. Noto, no entanto, que a coordenação é uma condição esperada, ou seja, haverá motivação para que haja algum paralelismo, na medida em que sabemos, pelas teorias elaboradas anteriormente sobre a elipse --ver as propostas no capítulo 2--, que o antecedente deve fornecer ao nome vazio o seu significado. Acrescento simplesmente aqui que, para a elipse ser processada a nível interpretativo, o antecedente também deve-lhe fornecer o seu estatuto sintáctico: o nível categorial de pro é provavelmente determinado pelo do seu antecedente.
Outra característica dos adjectivos discretos é que autorizam, em determinada configuração, a elipse do nome e de alguns dos seus modificadores:

(145)
a. As [estrelas azuis] próximas e as [e] longínquas
b. A [floresta equatorial] nigeriana e a [e] liberiana
c. *As estrelas azuis próximas e as vermelhas

Nestas construções, podemos considerar que a elipse incide, não só sobre o núcleo N ou o NP, mas também sobre algumas projecções funcionais. Assim, em (145a), haveria elipse da categoria funcional QualP, portadora do adjectivo azul. No entanto, como mostra (145c), não é possível haver elipse se o adjectivo e o nome não forem adjacentes. Tudo indica pois que, nestes casos, o nome forma com determinado adjectivo um complexo predicativo que pode globalmente ser suprimido quando associado a um par de adjectivos discretos, mas que não pode ser separado. Nesse caso, estrelas azuis forma um constituinte referencial, que pode servir de antecedente à elipse do nome. O mesmo efeito pode ser observado a seguir:

(146)
a. A floresta equatorial explorada e a [e] inexplorada
b. * A floresta equatorial explorada e a [e] tropical


Além de sugerir a existência de regras de adjacência nas projecções funcionais com adjectivos, estes exemplos provam crucialmente que a elipse do nome não tem lugar depois do movimento de N para Num, mas antes, isto é, provam que a elipse do nome é basicamente engendrada.
Outra característica, que considero essencial, pode ser agora analisada. Por aquilo que acabo de sugerir, sobre a identidade entre o nível categorial do constituinte elíptico e o do seu antecedente, afigura-se outra restrição importante sobre os nomes vazios: não só o nível categorial da elipse e o do seu antecedente devem coincidir, como também o constituinte legitimador de pro deve ser semântica e sintacticamente equivalente a um constituinte projectado no DP antecedente. Considero que este requisito é um princípio determinante na identificação da elipse do nome, isto é, haverá elipse do nome se, ao constituinte legitimador da elipse --adjectivo, quantificador, etc--, portador de traços específicos ou de propriedades discriminativas a nível cognitivo, corresponder outro constituinte --no presente caso um adjectivo discreto-- provido da mesma capacidade discriminativa e atribuidora de propriedades, situado em [Spec,XP] no DP antecedente. Os dois adjectivos em questão --o do DP elíptico e o do DP antecedente-- devem evidenciar uma relação de significado exclusiva, que pode coincidir com condições de natureza lexical. Dito de outra forma, acho que deve haver paralelismo, ou simetria, não só entre o termo elíptico e o que lhe corresponde no contexto, mas também entre o termo que autoriza a elipse do nome e outro que acompanha o antecedente do nome vazio. Podemos ver que os exemplos dados anteriormente de (139) a (142) obedecem todos a estes imperativos. A marginalidade sugerida em alguns exemplos de (144) também parece ter a mesma explicação.
Os exemplos seguintes ilustram mais precisamente estas restrições: o adjectivo legitimador de pro realiza determinados requisitos, que devem ser também realizados no adjectivo de mesmo nível no DP antecedente. Se essa equivalência não se realizar, a elipse do nome não é boa, embora pro seja formalmente legitimado. Em (147a.b), vemos que esta restrição se aplica aos adjectivos em [Spec,OrdP], que se distinguem obviamente dos que estão em [Spec, PreNumP]; em (147c.d), o mesmo efeito pode ser obtido com outros adjectivos, como os de qualidade e os de cor; por fim, em (147e.f), os adjectivos relacionais e os predicativos produzem o mesmo resultado:
[100]

(147)
a. O primeiro concorrente e o segundo são Portugueses
b. * O primeiro concorrente e o bonito são Portugueses
c. O livro verde e o vermelho têm sensivelmente o mesmo preço
d. * O livro verde e o interessante têm sensivelmente o mesmo preço
e. É na literatura clássica e na [e] romântica que os autores portugueses mais brilham
f. *É na literatura clássica e na [e] legível que os autores portugueses mais brilham


Além de confirmar a relação entre elipse e redundância, estes exemplos mostram que os adjectivos implicados em (147b.d.f) são de facto sintacticamente distintos, e gerados em projecções funcionais diferentes: é fácil demonstrar que um adjectivo temático como Americana, em [Spec,NP] --ver Cinque (1993), Brito (1993)--, se distingue nitidamente de um relacional classificador, como presidencial, confirmando as intuições de Bosque & Picallo, já referidas:

(148)
a. * A posição Americana e a [e] presidencial apanharam a Europa de surpresa
b. A posição Americana e a [e] Japonesa apanharam a Europa de surpresa


Voltemos agora aos exemplos do tipo "Casou com a inteligente": estas frases podem ser consideradas razoavelmente marginais, ou pelo menos ambíguas, não pela razão apontada inicialmente --a qualidade semântica do adjectivo é que estaria em causa--, mas pelo facto de serem frases que não têm, em si mesmo, um contexto simétrico. O problema, nestas frases, é que não existe um antecedente capaz de fornecer, não só identificação semântica a pro, como talvez também identidade categorial. Já tive a ocasião de mostrar que, se o adjectivo interessante for associado a um adjectivo antónimo, simetricamente significativo, como aborrecido, então a elipse do nome é perfeitamente concebível. As qualidades contrastivas destes adjectivos discretos são determinantes para o efeito de simetria detectado, e equivalem a um princípio de ordenação ou de hierarquia. Revejam-se os exemplos (136) a (138), e também os casos seguintes:
[103]

(149)
a. No meio de tantos [e] medíocres, ainda há jornalistas valiosos
b. * No meio de tantos [e] medíocres, ainda há jornalistas novos
c. A actividade profissional da mulher é muitas vezes incompatível com a [e] doméstica
d. * A actividade profissional da mulher é muitas vezes incompatível com a [e] estimulante


Em (149a.c), existe atribuição simétrica de propriedades, pelo que o nome vazio é facilmente associado ao seu antecedente. Pares de adjectivos como profissional/doméstico e medíocre/valioso sugerem que determinadas relações de natureza lexical podem ser indiciadas no processo de recuperação do significado de um nome vazio.
Por fim, proponho também distinguir entre elipses envolvidas em frases coordenadas, e ocorrências de pro em frases não coordenadas, às quais na literatura se dá também o rótulo de elipse. Vejamos alguns exemplos já apresentados, aqui citados de novo:

(150)
a. * Livros escritos pelo Saramago, só gosto dos [e] interessantes
b Nunca lemos os livros aborrecidos na íntegra, mas chegamos ao fim dos [e] interessantes sem dar por isso.


O exemplo (150a) não apresenta nenhuma simetria; pelo contrário, esta frase é caracterizada por uma sintaxe marcadamente assimétrica, já que ilustra um mecanismo de deslocação de um constituinte para o início da frase --uma topicalização (cf. Duarte 1987). Ou seja, esta frase não apresenta, no meu entender, nenhuma elipse, mas sim uma relação anafórica entre o constituinte movido e uma categoria vazia que podemos considerar como o vestígio do movimento, daí a dificuldade em aceitar (150a) em comparação com (150b) As considerações anteriores levam à seguinte conclusão: em (150a), a estrutura da frase mostra que não existe qualquer antecedente, pelo que as condições de identificação de pro não podem ser satisfeitas. Pelo contrário, em (150b), o mesmo adjectivo legitima pro, e o contexto identifica o seu conteúdo. Na verdade, penso que se deve reservar o termo de elipse para frases caracterizadas por um paralelismo estrutural entre o constituinte vazio e o constituinte de referência, e rejeito a ideia de considerar elípticas frases como (150a).
[106]



3.3.3.3.2.Elipse e léxico

Como os exemplos anteriores sugerem, os efeitos de contraste desencadeados por certos adjectivos legitimadores de nomes vazios --que designo genericamente por adjectivos discretos-- podem ser relacionados com factores lexicais. De facto, condições lexicais podem ter um papel de relevo na elipse do nome associada a adjectivos. Além do fenómeno de simetria formal, a ideia de simetria pode ser alargada às observações produzidas sobre a semântica dos adjectivos legitimadores de nomes vazios.
Como vimos, esses adjectivos são caracterizados pelo seu poder discriminativo, pelo facto de implicarem a existência de um adjectivo simetricamente oposto, como grande que implica pequeno, ou interessante que implica aborrecido. Esses adjectivos permitem atribuir propriedades discretas a nível cognitivo. Assumo que estas propriedades discriminativas assentam numa relação de natureza lexical: a simetria semântica desses adjectivos é originada no facto de serem alguns adjectivos lexicalmente hipónimos e outros antónimos. Note-se que o valor cognitivo destes adjectivos constitui frequentemente um complexo lexical binário
[107] e que a presença de um dos elementos implica o outro --bom implica mau. Esse complexo binário[108] parece existir em estruturas sintácticas simétricas, nomeadamente nas construções elípticas.
Se a antonímia resulta de um efeito de contraste relativamente estável, a hiponímia pode ser comparada a uma relação entre sub-conjuntos --todos os termos hipónimos-- e um conjunto de referência --neste caso o termo hiperónimo. É possível tomar adjectivos atribuidores de propriedades como termos hipónimos. Podemos dizer que uma expressão
nominal como atmosfera joviana implica atmosfera planetária. Como o hipónimo tem uma extensão mais reduzida que o seu hiperónimo, o adjectivo joviana está em concorrência com outros adjectivos, como por exemplo terrestre ou marciana, estando todos abrangidos pelo hiperónimo planetária. Neste caso, joviana e terrestre podem ser considerados co-hipónimos, pelo que a sua utilização numa construção elíptica pode ser prevista:

(151) A química da atmosfera joviana é totalemente diferente da [e] terrestre.



Interpreto portanto o efeito de familiaridade, referido, na literatura, para a identificação de nomes vazios, como uma manifestação de uma relação lexical --os dois adjectivos são hipónimos. Como vimos, o pronome elíptico pro é um constituinte de natureza incompleta, que, ao contrário dos pronomes referenciais, exige uma informação complementar, que está geralmente situada num antecedente linguístico de ordem contextual. A elipse é referencialmente incompleta --nisto distingue-se da anáfora, que é referencialmente completa-- mas é lexicalmente exclusiva, isto é, as condições de identificação do conteúdo da elipse devem, além de verificar a presença de um antecedente, implicar uma relação lexicalmente relevante entre o legitimador do nome suprimido e o legitimador do antecedente.
Vejamos a frase seguinte:

(152) O carro verde é do João, mas o [e] branco, não sei de quem é

Por que razão é processada a nível lógico a equivalência [e] = carro? A reconstrução do significado do nome suprimido pode ser (parcialmente) relacionada com as características lexicais do próprio especificador. Do ponto de vista lexical, existe entre as qualidades verde e branco uma relação de contiguidade: são dois adjectivos de cor, e "são aplicáveis a qualquer experiência na qual a cor pode ter lugar" (Lyons 1963:103). Tanto verde como branco podem ser considerados hipónimos da qualidade de ser colorido, isto é, são abrangidos pelo termo hiperónimo cor. O processo lógico de reconstrução (ou reconstituição) do nome nulo passa for uma fase de associação do elemento legitimador com elementos lexicalmente simétricos, reunidos no léxico por relações de hiponímia ou antonímia. Em (153a), a familiaridade de ligeiro, que autoriza a supressão de carro, explica-se naturalmente por uma relação lexical de hiponímia com pesado. Quando essa relação não existe, o segundo termo não é familiar e não existe possibilidade segura de identificar o nome contextualmente suprimido. É o caso em (153b), em que ligeiro e bonito não são hipónimos (nem antónimos):

(153)
a. Os carros ligeiros gastam menos que os [e] pesados
b. * Os carros ligeiros gastam menos que os [e] bonitos


Quanto aos adjectivos antónimos absolutos (Lyons 1963), como solteiro/casado, e aos adjectivos antónimos relativos, como pequeno/grande, constituem um complexo lexical, um par semântico no qual os seus membros evidenciam relações de exclusividade. O uso de um dos membros cria condições ao surgimento do outro. Em (154), é uma relação de antonímia que está na base da elipse do nome:

(154)
a. As mães solteiras têm em média mais bebés prematuros do que as [e] casadas
b. O fogo chegou aos andares inferiores e ameaça os [e] superiores


Penso pois que uma parte significativa da identificação do nome vazio é um processo de interpretação lexical. Assim, deve existir, não só simetria formal, na medida em que, na maioria dos casos, a elipse está inserida em frases coordenadas, mas também simetria lexical: os dois termos legitimadores devem ser lexicalmente próximos, e evidenciarem relações de hiponímia ou antonímia.
Esta última observação deve ser completada com a seguinte: para a maioria das construções elípticas que acabo de referir, em que o adjectivo aparece em simetria lexical, o DP elíptico poderia ser considerado como composto de um determinante seguido de um nome pleno, isto é, o adjectivo em questão poderia ser considerado nominalizado. De facto, os casados, os primeiros, um profissional, os criacionistas, os medíocres, os velhos, os clássicos, os verdes ou o pequeno parecem ser expressões referenciais completas, e denotam indivíduos --ou conjuntos de indivíduos-- do mesmo modo que um nome pleno. Repare-se que estes casos podem ser relacionados com os exemplos apontados por Kester (1996) para o Neerlandês, que esta autora reúne genericamente sob a designação de construção humana --ver capítulo 2. Para Kester, expressões como os cegos envolvem um caso de legitimação de um nome vazio por um adjectivo [+humano], e identificação por um determinante [-neutro]. Embora, à primeira vista, seja difícil escolher entre a proposta de Kester e a ideia de uma simples nominalização
[113], devemos observar que os casos referidos para o Português têm aparentemente em comum o traço [+humano], como têm também na sua maioria em comum os traços [+plural] e [+género], o que indicia a sua natureza nominal. Penso pois que estes casos podem ser considerados DPs elípticos que, por razões de ordem semântica, adquiriram independência lexical, e correspondem a termos plenamente referenciais.[114] Estas expressões são particularmente relevantes a nível cognitivo para referir grupos ou tipos humanos, classes ou conjuntos de entidades animadas, que correspondem a um esforço de classificação normativa. Uma expressão como os velhos parece-me pois ser o resultado da lexicalização de um DP elíptico.
Este processo de lexicalização é bastante produtivo, tanto em Português como em Francês, línguas em que os nomes plenos podem facilmente ser deixados de fora se o locutor dispuser de meios de referência alternativos. O uso dessas formas elípticas é vulgar: as [eleições] autárquicas, a [universidade] privada, os [jogadores] portistas, etc. Em Francês, o mesmo tipo de redução elíptica afecta os DPs plenos: la [élection] présidentielle, le [enseignement] privé, les [auteurs] classiques, etc.
[115] Estes últimos casos mais não fazem do que retomar observações típicas da gramática tradicional: o estilo elíptico corresponde a uma vontade de reduzir, por razões variadas, o discurso produzido.


Em suma, a simetria semântica / lexical que se estabelece entre o legitimador e o antecedente no contexto linguístico, assim como a simetria sintáctica das frases com elipse do nome, criam as condições para a recuperação da identidade categorial e lexical do nome suprimido.

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