Vejamos agora as
condições de identificação de pro
neste tipo de estrutura.
Retomando as
observações anteriores, em que se conclui que os
adjectivos intransitivos são sistematicamente especificadores
de projecções funcionais, podemos adiantar que a
presença na construção [D+AP+pro]
de um elemento com significado partitivo --como é sugerido na
bibliografia-- não é necessária. Em alternativa
afigura-se que, nas construções
[D+AP+pro], a característica comum a todos os
adjectivos legitimadores de nomes vazios é aquela que
caracteriza em geral os adjectivos de qualidade, atribuidores de
propriedades: estes adjectivos partilham o facto de poderem referir
entidades discretas ou propriedades discriminativas relevantes a
nível cognitivo ou pragmático. Os adjectivos que podem
ser seguidos de nomes vazios são presumivelmente ordenados
segundo um critério epistemológico: a propriedade que
denotam corresponde a entidades ou propriedades
características do nosso conhecimento do mundo. Para as
línguas naturais, as propriedades mais relevantes em termos
culturais e cognitivos incluem a cor, o tamanho, a idade, a
distância, o valor, etc. Os adjectivos que atribuem essas
propriedades são por isso geralmente antinómicos. Os
adjectivos atributivos com propriedades discriminativas que se
combinam com a elipse do nome devem expressar estas
noções relevantes em termos cognitivos. Retomando o
conceito de quantificador discreto, devido a Lopes, e
estabelecendo um paralelo entre aqueles quantificadores e as
propriedades destes adjectivos, proponho-me designá-los como
adjectivos discretos. Por exemplo, o conjunto
genérico de livros, no qual são incluídas
todas as entidades que correspondem à intensão de
livro, pode ser dividido em conjuntos ordenados de livros
interessantes e aborrecidos, caros e
baratos, etc. Sendo assim, não só os adjectivos
estritamente partitivos, mas também adjectivos como
inteligente, interessante, vegetal,
magnífico, americano, podem ser considerados
como legitimadores de nomes vazios, desde que o contexto da elipse
seja suficientemente discriminativo, o que acontece particularmente
em frases marcadamente simétricas:[84]
(136)
a. As eleicões legislativas e as [e]
autárquicas este ano coincidem
b Os veículos solares e os [e] eléctricos
anunciam os carros de amanhã
c. Les maladies congénitales et les [e] virales sont
en augmentation constante
d. La religion chrétienne n'a jamais fait bon ménage
avec la [e] musulmane
O mesmo efeito pode ser evidenciado com adjectivos que pertencem ao
vocabulário técnico ou científico da taxionomia.
Nos seguintes contextos, típico das definições
de dicionário, verifica-se que a elipse do nome é
sistemática com qualquer dos tipos de adjectivo referido,
inclusive com os adjectivos formados com nomes próprios:
(137)
a. Ces bactéries qui vivent à 95º, on les appelle
les [e] thermophiles
b. L'ère géologique qui précède la
nôtre est la [e] terciaire
c. As teses em conflito no sistema educativo norte-americano
são a [e] criacionista e a [e]
evolucionista
d. A história da filosofia mostra que as ideias
platónicas estão em contradição com as
[e] aristotélicas
e. De tous les styles préhistoriques, le [e]
neanderthalien est celui qui est le moins illustré dans les
peintures pariétales
Como estes exemplos sugerem, os adjectivos especializados, relativos
a termos técnicos, históricos, metodológicos,
etc., como thermophile, criacionista ou
neanderthalien acabam por se confundir, quando são
associados à elipse do nome que modificam, com o que
tradicionalmente é designado de nominalização do
adjectivo: uma expressão como os deficientes ou os
reformados adquire a capacidade de referir directamente, porque o
antecedente do nome vazio está associado a conteúdos
relacionados com o nosso conhecimento do mundo, e pode ser
logicamente identificado com determinado grupo, tipo, saber,
corrente, autor, etc. A taxionomia técnico-científica
é bastante propícia a este tipo de
construção. Notável é o facto de todo o
processo assentar num mecanismo de legitimação formal e
identificação de um nome suprimido contextualmente.
Nenhum dos exemplos em (136) e (137) me parece ambíguo ou
marginal. Num contexto menos favorável, sem
coordenação ou simetria pronunciadas, em
circunstâncias que não permitam o efeito de
catalogação referido, o poder discriminativo do
adjectivo discreto poderá ficar comprometido. É o que
acontece em situações de relação
anafórica entre um nome deslocado para o início da
frase e o nome vazio em posição básica: como se
vê a seguir, o mesmo adjectivo deixa de ser bom quando
não é ligado a um contexto suficientemente
simétrico, mas é gramatical quando o contexto é
enriquecido, por exemplo em frases coordenadas:
(138)
a. * Destes carros, vou comprar o [e] eléctrico
b. * Dos livros escritos pelo Saramago, só gosto dos
[e] interessantes
c. Destes novos veículos com energias alternativas, penso que
o [e] eléctrico é o mais promissor
d. Os livros aborrecidos, nunca os lemos na íntegra, mas os
[e] interessantes, chegamos ao fim sem dar por isso.
Não deixa de ser notável o facto de a própria
estrutura sintáctica da frase em que a elipse do nome
está inserida obedecer a algumas características
formais, como a coordenação frásica. No
mecanismo da elipse aqui adoptado, considero que qualquer adjectivo,
independentemente do seu valor semântico, pode legitimar um
nome vazio, desde que o DP em que está inserido implique
alguma forma de coordenação.
[88]
Com efeito, a possibilidade de haver elipse, neste tipo de exemplos,
depende de uma coordenação de constituintes, que parece
ser condição de recuperação da
informação contextual. A recuperabilidade é uma
condição para a identificação do
conteúdo da categoria elíptica. A elipse é um
mecanismo que mantém com o contexto local uma
relação estreita: genericamente, só é
possível em condições favoráveis, quando
a informação é coerentemente estruturada, isto
é, simétrica. A identificação da elipse
equivale a delimitar um contexto no qual as informações
contextuais são suficientes par poderem ser verificadas e para
não se estar a produzir ambiguidade.
[89]
Essa verificação só é possível em
configurações sintácticas em que existe
coordenação entre a estrutura que contem a categoria
elíptica e a que contem o antecedente que a identifica. A
identificação da elipse por um antecedente
específico implica por isso simetria estrutural entre duas
expressões.
A relação entre a possibilidade de suprimir um nome e a
coordenação pode ser evidenciada mais rigorosamente. De
acordo com Bosque & Picallo, em exemplos como (103.a), aqui
citado de novo em (139.a), haverá que distinguir entre
coordenação de DPs e coordenação de
adjectivos. Os dois termos da coordenação podem ou
não ser antecedidos de um determinante. No primeiro caso,
há elipse do nome do segundo DP. Esta distinção
é também ilustrada nos dois exemplos em
Português. Note-se que, apesar de não haver elipse em
(139c), uma restrição de tipo lexical existe: os dois
adjectivos devem manifestar um paralelismo semântico, caso
contrário não podem ser coordenados
(139d):[90]
(139)
a. Las incursiones aéreas e las [e] terrestres
b. As manobras marítimas e as [e] aéreas
c. As manobras marítimas e aéreas
d. * As manobras marítimas e diárias
A coordenação, nestes casos, implica não
só condições de identidade estrutural --devem
ser dois adjectivos--, mas também condições de
identidade lexical --devem ser lexicalmente
simétricos:[92]
(140)
a. As escolas primárias e as secundárias
b. * As escolas primárias e as antigas
c. As escolas primárias e secundárias
d. * As escolas primárias e antigas
Casteleiro (1978) nota o mesmo tipo de contraste entre os adjectivos
predicativos e os não predicativos: estes dois tipos
não podem ser coordenados entre si, como mostra (141a).
Faço notar que a referida coordenação
também é impossível em caso de elipse do
nome:
(141)
a. * Engenheiros competentes e electrotécnicos
b. * Os engenheiros competentes e os [e]
electrotécnicos
Crucialmente, (139b) e (139c) --e também (140a) e (140c)--
não são de significado equivalente. A
coordenação de DPs implica dois referentes distintos,
enquanto a coordenação de adjectivos implica uma
única referência com duas propriedades, o que origina
algumas frases marginais:
(142)
a. As manobras marítimas e as [e] aéreas
tiveram lugar em dois dias diferentes
a. ?? As manobras marítimas e aéreas tiveram lugar em
dois dias diferentes
c. Na conferência sobre o ambiente, os países pobres e
os [e] ricos sentaram-se frente a frente
d. ?? Os países pobres e ricos sentaram-se frente a frente
Haverá que notar que os adjectivos que, nas Línguas
Românicas, podem ocupar a posição
pré-nominal ou pós-nominal, conforme sejam apositivos
ou restritivos (Casteleiro 1978, Crisma 1995), legitimam a elipse do
nome desde que inseridos numa construção
simétrica, independentemente da sua posição
relativamente ao nome. Faço notar no entanto que os
adjectivos discretos, em princípio pós-nominais
em Português e em Francês, podem também ocupar uma
posição pré-nominal, mas que essa
posição não retira crucialmente a estes
adjectivos a capacidade de legitimarem nomes vazios, como os exemplos
seguintes mostram:
(143)
a. A etapa anterior e a seguinte são as mais
difíceis
b. A anterior etapa é mais difícil que a seguinte
c. Comprei a casa antiga e também a nova
d. A antiga casa do João era mais bonita que a nova
A generalidade dos casos citados anteriormente implicam, entre outras
coisas, que a elipse do nome pode ocorrer quando o nome suprimido
é coordenado a outro constituinte com a mesma categoria e o
mesmo nível sintáctico. Nessa hipótese, a elipse
de um núcleo Nº só será tolerada se o seu
antecedente for um núcleo Nº, e um NP vazio, em que o
núcleo e os seus complementos são nulos, não
poderá ser legitimado se o antecedente categorial não
tiver a mesma estrutura sintáctica. Contudo, o contexto
seguinte mostra que, se o constituinte elíptico não
corresponde a um constituinte simétrico no DP antecedente, a
elipse do nome não deixa de ser boa, embora seja marginal em
alguns casos:
(144)
a. O livro de Francês e o de Português
b. O livro de Francês e o que comprei ontem
c. ? O livro antigo e o de matemática
d. ? O livro de Francês e o novo
Como estes exemplos indicam, a identidade categorial entre elipse e
antecedente não parece uma restrição forte, o
que implica que não é preciso uma absoluta simetria
sintáctica entre o antecedente e o DP elíptico. Noto,
no entanto, que a coordenação é uma
condição esperada, ou seja, haverá
motivação para que haja algum paralelismo, na medida em
que sabemos, pelas teorias elaboradas anteriormente sobre a elipse
--ver as propostas no capítulo 2--, que o antecedente deve
fornecer ao nome vazio o seu significado. Acrescento simplesmente
aqui que, para a elipse ser processada a nível interpretativo,
o antecedente também deve-lhe fornecer o seu estatuto
sintáctico: o nível categorial de pro é
provavelmente determinado pelo do seu antecedente.
Outra característica dos adjectivos discretos é
que autorizam, em determinada configuração, a elipse do
nome e de alguns dos seus modificadores:
(145)
a. As [estrelas azuis] próximas e as [e]
longínquas
b. A [floresta equatorial] nigeriana e a [e]
liberiana
c. *As estrelas azuis próximas e as vermelhas
Nestas construções, podemos considerar que a elipse
incide, não só sobre o núcleo N ou o NP, mas
também sobre algumas projecções funcionais.
Assim, em (145a), haveria elipse da categoria funcional QualP,
portadora do adjectivo azul. No entanto, como mostra (145c),
não é possível haver elipse se o adjectivo e o
nome não forem adjacentes. Tudo indica pois que, nestes casos,
o nome forma com determinado adjectivo um complexo predicativo que
pode globalmente ser suprimido quando associado a um par de
adjectivos discretos, mas que não pode ser separado. Nesse
caso, estrelas azuis forma um constituinte referencial, que
pode servir de antecedente à elipse do nome. O mesmo efeito
pode ser observado a seguir:
(146)
a. A floresta equatorial explorada e a [e] inexplorada
b. * A floresta equatorial explorada e a [e] tropical
Além de sugerir a existência de regras de
adjacência nas projecções funcionais com
adjectivos, estes exemplos provam crucialmente que a elipse do nome
não tem lugar depois do movimento de N para Num, mas antes,
isto é, provam que a elipse do nome é basicamente
engendrada.
Outra característica, que considero essencial, pode ser agora
analisada. Por aquilo que acabo de sugerir, sobre a identidade entre
o nível categorial do constituinte elíptico e o do seu
antecedente, afigura-se outra restrição importante
sobre os nomes vazios: não só o nível categorial
da elipse e o do seu antecedente devem coincidir, como também
o constituinte legitimador de pro deve ser semântica e
sintacticamente equivalente a um constituinte projectado no DP
antecedente. Considero que este requisito é um
princípio determinante na identificação da
elipse do nome, isto é, haverá elipse do nome se, ao
constituinte legitimador da elipse --adjectivo, quantificador, etc--,
portador de traços específicos ou de propriedades
discriminativas a nível cognitivo, corresponder outro
constituinte --no presente caso um adjectivo discreto--
provido da mesma capacidade discriminativa e atribuidora de
propriedades, situado em [Spec,XP] no DP antecedente. Os dois
adjectivos em questão --o do DP elíptico e o do DP
antecedente-- devem evidenciar uma relação de
significado exclusiva, que pode coincidir com condições
de natureza lexical. Dito de outra forma, acho que deve haver
paralelismo, ou simetria, não só entre o termo
elíptico e o que lhe corresponde no contexto, mas
também entre o termo que autoriza a elipse do nome e outro que
acompanha o antecedente do nome vazio. Podemos ver que os exemplos
dados anteriormente de (139) a (142) obedecem todos a estes
imperativos. A marginalidade sugerida em alguns exemplos de (144)
também parece ter a mesma explicação.
Os exemplos seguintes ilustram mais precisamente estas
restrições: o adjectivo legitimador de pro
realiza determinados requisitos, que devem ser também
realizados no adjectivo de mesmo nível no DP antecedente. Se
essa equivalência não se realizar, a elipse do nome
não é boa, embora pro seja formalmente
legitimado. Em (147a.b), vemos que esta restrição se
aplica aos adjectivos em [Spec,OrdP], que se distinguem
obviamente dos que estão em [Spec,
PreNumP]; em (147c.d), o mesmo efeito pode ser obtido com
outros adjectivos, como os de qualidade e os de cor; por fim, em
(147e.f), os adjectivos relacionais e os predicativos produzem o
mesmo resultado: [100]
(147)
a. O primeiro concorrente e o segundo são Portugueses
b. * O primeiro concorrente e o bonito são Portugueses
c. O livro verde e o vermelho têm sensivelmente o mesmo
preço
d. * O livro verde e o interessante têm sensivelmente o mesmo
preço
e. É na literatura clássica e na [e]
romântica que os autores portugueses mais brilham
f. *É na literatura clássica e na [e]
legível que os autores portugueses mais brilham
Além de confirmar a relação entre elipse e
redundância, estes exemplos mostram que os adjectivos
implicados em (147b.d.f) são de facto sintacticamente
distintos, e gerados em projecções funcionais
diferentes: é fácil demonstrar que um adjectivo
temático como Americana, em [Spec,NP] --ver
Cinque (1993), Brito (1993)--, se distingue nitidamente de um
relacional classificador, como presidencial, confirmando as
intuições de Bosque & Picallo, já
referidas:
(148)
a. * A posição Americana e a [e] presidencial
apanharam a Europa de surpresa
b. A posição Americana e a [e] Japonesa
apanharam a Europa de surpresa
Voltemos agora aos exemplos do tipo "Casou com a inteligente": estas
frases podem ser consideradas razoavelmente marginais, ou pelo menos
ambíguas, não pela razão apontada inicialmente
--a qualidade semântica do adjectivo é que estaria em
causa--, mas pelo facto de serem frases que não têm, em
si mesmo, um contexto simétrico. O problema, nestas frases,
é que não existe um antecedente capaz de fornecer,
não só identificação semântica a
pro, como talvez também identidade categorial.
Já tive a ocasião de mostrar que, se o adjectivo
interessante for associado a um adjectivo antónimo,
simetricamente significativo, como aborrecido, então a
elipse do nome é perfeitamente concebível. As
qualidades contrastivas destes adjectivos discretos são
determinantes para o efeito de simetria detectado, e equivalem a um
princípio de ordenação ou de hierarquia.
Revejam-se os exemplos (136) a (138), e também os casos
seguintes:[103]
(149)
a. No meio de tantos [e] medíocres, ainda há
jornalistas valiosos
b. * No meio de tantos [e] medíocres, ainda há
jornalistas novos
c. A actividade profissional da mulher é muitas vezes
incompatível com a [e] doméstica
d. * A actividade profissional da mulher é muitas vezes
incompatível com a [e] estimulante
Em (149a.c), existe atribuição simétrica de
propriedades, pelo que o nome vazio é facilmente associado ao
seu antecedente. Pares de adjectivos como
profissional/doméstico e
medíocre/valioso sugerem que determinadas
relações de natureza lexical podem ser indiciadas no
processo de recuperação do significado de um nome
vazio.
Por fim, proponho também distinguir entre elipses envolvidas
em frases coordenadas, e ocorrências de pro em frases
não coordenadas, às quais na literatura se dá
também o rótulo de elipse. Vejamos alguns exemplos
já apresentados, aqui citados de novo:
(150)
a. * Livros escritos pelo Saramago, só gosto dos [e]
interessantes
b Nunca lemos os livros aborrecidos na íntegra, mas chegamos
ao fim dos [e] interessantes sem dar por isso.
O exemplo (150a) não apresenta nenhuma simetria; pelo
contrário, esta frase é caracterizada por uma sintaxe
marcadamente assimétrica, já que ilustra um mecanismo
de deslocação de um constituinte para o início
da frase --uma topicalização (cf. Duarte 1987). Ou
seja, esta frase não apresenta, no meu entender, nenhuma
elipse, mas sim uma relação anafórica entre o
constituinte movido e uma categoria vazia que podemos considerar como
o vestígio do movimento, daí a dificuldade em aceitar
(150a) em comparação com (150b) As
considerações anteriores levam à seguinte
conclusão: em (150a), a estrutura da frase mostra que
não existe qualquer antecedente, pelo que as
condições de identificação de pro
não podem ser satisfeitas. Pelo contrário, em (150b), o
mesmo adjectivo legitima pro, e o contexto identifica o seu
conteúdo. Na verdade, penso que se deve reservar o termo de
elipse para frases caracterizadas por um paralelismo
estrutural entre o constituinte vazio e o constituinte de
referência, e rejeito a ideia de considerar elípticas
frases como (150a).[106]
Como os exemplos anteriores
sugerem, os efeitos de contraste desencadeados por certos adjectivos
legitimadores de nomes vazios --que designo genericamente por
adjectivos discretos-- podem ser relacionados com factores
lexicais. De facto, condições lexicais podem ter um
papel de relevo na elipse do nome associada a adjectivos. Além
do fenómeno de simetria formal, a ideia de simetria pode ser
alargada às observações produzidas sobre a
semântica dos adjectivos legitimadores de nomes vazios.
Como vimos, esses adjectivos são caracterizados pelo seu poder
discriminativo, pelo facto de implicarem a existência de um
adjectivo simetricamente oposto, como grande que implica
pequeno, ou interessante que implica aborrecido.
Esses adjectivos permitem atribuir propriedades discretas a
nível cognitivo. Assumo que estas propriedades discriminativas
assentam numa relação de natureza lexical: a simetria
semântica desses adjectivos é originada no facto de
serem alguns adjectivos lexicalmente hipónimos e outros
antónimos. Note-se que o valor cognitivo destes adjectivos
constitui frequentemente um complexo lexical
binário[107]
e que a presença de um dos elementos implica o outro --bom
implica mau. Esse complexo binário[108]
parece existir em estruturas sintácticas simétricas,
nomeadamente nas construções elípticas.
Se a antonímia resulta de um efeito de contraste relativamente
estável, a hiponímia pode ser comparada a uma
relação entre sub-conjuntos --todos os termos
hipónimos-- e um conjunto de referência --neste caso o
termo hiperónimo. É possível tomar adjectivos
atribuidores de propriedades como termos hipónimos. Podemos
dizer que uma expressão
nominal como atmosfera
joviana implica atmosfera planetária. Como o
hipónimo tem uma extensão mais reduzida que o seu
hiperónimo, o adjectivo joviana está em
concorrência com outros adjectivos, como por exemplo
terrestre ou marciana, estando todos abrangidos pelo
hiperónimo planetária. Neste caso,
joviana e terrestre podem ser considerados
co-hipónimos, pelo que a sua utilização numa
construção elíptica pode ser prevista:
(151) A química da atmosfera
joviana é totalemente diferente da [e] terrestre.
Interpreto portanto o efeito de familiaridade, referido, na
literatura, para a identificação de nomes vazios, como
uma manifestação de uma relação
lexical --os dois adjectivos são hipónimos. Como
vimos, o pronome elíptico pro é um constituinte
de natureza incompleta, que, ao contrário dos pronomes
referenciais, exige uma informação complementar, que
está geralmente situada num antecedente linguístico de
ordem contextual. A elipse é referencialmente incompleta
--nisto distingue-se da anáfora, que é referencialmente
completa-- mas é lexicalmente exclusiva, isto é, as
condições de identificação do
conteúdo da elipse devem, além de verificar a
presença de um antecedente, implicar uma relação
lexicalmente relevante entre o legitimador do nome suprimido e o
legitimador do antecedente.
Vejamos a frase seguinte:
(152) O carro verde é do
João, mas o [e] branco, não sei de quem
é
Por que razão é processada a nível lógico
a equivalência [e] = carro? A
reconstrução do significado do nome suprimido pode ser
(parcialmente) relacionada com as características lexicais do
próprio especificador. Do ponto de vista lexical, existe entre
as qualidades verde e branco uma relação
de contiguidade: são dois adjectivos de cor, e "são
aplicáveis a qualquer experiência na qual a cor pode ter
lugar" (Lyons 1963:103). Tanto verde como branco podem
ser considerados hipónimos da qualidade de ser
colorido, isto é, são abrangidos pelo termo
hiperónimo cor. O processo lógico de
reconstrução (ou reconstituição) do nome
nulo passa for uma fase de associação do elemento
legitimador com elementos lexicalmente simétricos, reunidos no
léxico por relações de hiponímia ou
antonímia. Em (153a), a familiaridade de ligeiro, que
autoriza a supressão de carro, explica-se naturalmente
por uma relação lexical de hiponímia com
pesado. Quando essa relação não existe, o
segundo termo não é familiar e não existe
possibilidade segura de identificar o nome contextualmente suprimido.
É o caso em (153b), em que ligeiro e bonito
não são hipónimos (nem antónimos):
(153)
a. Os carros ligeiros gastam menos que os [e] pesados
b. * Os carros ligeiros gastam menos que os [e] bonitos
Quanto aos adjectivos antónimos absolutos (Lyons 1963), como
solteiro/casado, e aos adjectivos antónimos
relativos, como pequeno/grande, constituem um complexo
lexical, um par semântico no qual os seus membros evidenciam
relações de exclusividade. O uso de um dos membros cria
condições ao surgimento do outro. Em (154), é
uma relação de antonímia que está na base
da elipse do nome:
(154)
a. As mães solteiras têm em média mais
bebés prematuros do que as [e] casadas
b. O fogo chegou aos andares inferiores e ameaça os
[e] superiores
Penso pois que uma parte significativa da identificação
do nome vazio é um processo de interpretação
lexical. Assim, deve existir, não só simetria formal,
na medida em que, na maioria dos casos, a elipse está inserida
em frases coordenadas, mas também simetria lexical: os dois
termos legitimadores devem ser lexicalmente próximos, e
evidenciarem relações de hiponímia ou
antonímia.
Esta última observação deve ser completada com a
seguinte: para a maioria das construções
elípticas que acabo de referir, em que o adjectivo aparece em
simetria lexical, o DP elíptico poderia ser considerado como
composto de um determinante seguido de um nome pleno, isto é,
o adjectivo em questão poderia ser considerado nominalizado.
De facto, os casados, os primeiros, um
profissional, os criacionistas, os
medíocres, os velhos, os clássicos,
os verdes ou o pequeno parecem ser expressões
referenciais completas, e denotam indivíduos --ou conjuntos de
indivíduos-- do mesmo modo que um nome pleno. Repare-se que
estes casos podem ser relacionados com os exemplos apontados por
Kester (1996) para o Neerlandês, que esta autora reúne
genericamente sob a designação de
construção humana --ver capítulo 2. Para
Kester, expressões como os cegos envolvem um caso de
legitimação de um nome vazio por um adjectivo
[+humano], e identificação por um determinante
[-neutro]. Embora, à primeira vista, seja
difícil escolher entre a proposta de Kester e a ideia de uma
simples nominalização[113],
devemos observar que os casos referidos para o Português
têm aparentemente em comum o traço [+humano],
como têm também na sua maioria em comum os traços
[+plural] e [+género], o que indicia a sua
natureza nominal. Penso pois que estes casos podem ser considerados
DPs elípticos que, por razões de ordem semântica,
adquiriram independência lexical, e correspondem a termos
plenamente referenciais.[114]
Estas expressões são particularmente relevantes a
nível cognitivo para referir grupos ou tipos humanos, classes
ou conjuntos
de entidades animadas, que correspondem a um esforço de
classificação normativa. Uma expressão como
os velhos parece-me pois ser o resultado da
lexicalização de um DP elíptico.
Este processo de lexicalização é bastante
produtivo, tanto em Português como em Francês,
línguas em que os nomes plenos podem facilmente ser deixados
de fora se o locutor dispuser de meios de referência
alternativos. O uso dessas formas elípticas é vulgar:
as [eleições] autárquicas, a
[universidade] privada, os [jogadores]
portistas, etc. Em Francês, o mesmo tipo de
redução elíptica afecta os DPs plenos: la
[élection] présidentielle, le
[enseignement] privé, les [auteurs]
classiques, etc.[115]
Estes últimos casos mais não fazem do que retomar
observações típicas da gramática
tradicional: o estilo elíptico corresponde a uma
vontade de reduzir, por razões variadas, o discurso
produzido.
Em suma, a simetria semântica / lexical que se estabelece entre
o legitimador e o antecedente no contexto linguístico, assim
como a simetria sintáctica das frases com elipse do nome,
criam as condições para a recuperação da
identidade categorial e lexical do nome suprimido.