A questão central que se
levanta nesta secção é de saber se a elipse em
geral, que corresponde a determinado nó estrutural desprovido
de material fonético, pode ser reduzida a uma das categorias
vazias apresentadas na tipologia (8). Por outro lado, se se optar por
integrar as categorias elípticas no conjunto das categorias
vazias, devemos então perguntar se o ECP, tal como é
formulado em (14), é capaz de legitimar outras categorias
vazias que presumivelmente não resultam de nenhum
movimento
Zribi-Hertz (1985), ao analisar o
exemplo seguinte (p.58):
(24) Je choisis toujours
Cuckori, car Marie adore [-]i
considera que tal frase levanta alguns problemas para a
identificação da posição vazia como
elipse ou como categoria vazia: esta posição,
representando o objecto, é uma posição
argumental, regida tematicamente pelo verbo, pelo que o
vestígio satisfaz as condições de
legitimação do ECP. No entanto, o seu conteúdo
referencial --aqui assinalado por co-indexação--
levanta dúvidas, na medida em que o antecedente lexical se
situa fora do CP local, encontrando-se na oração
principal como argumento do verbo choisir. Existe
intuitivamente uma relação de co-referência entre
a posição vazia e determinado constituinte anterior,
mas essa relação não é o resultado de um
movimento. Não há qualquer cadeia argumental, de que a
posição vazia seria a origem. A posição
vazia em (24) parece antes ser uma posição basicamente
engendrada, e é plausível assumir que não
é preenchida em Sintaxe de maneira a evitar alguma
redundância. Sendo assim, a ausência de objecto do verbo
adorer é uma elipse, e não uma categoria vazia,
se por categoria vazia se entender as que são
contempladas no módulo de Chomsky (1982,1986) em (8).
Observe-se que a frase é boa, uma vez que o locutor de alguma
maneira consegue restituir ao complemento subcategorizado a
identidade que lhe falta[37].
O exemplo (24) sugere que a elipse de alguma forma seria independente
do conceito de categoria vazia, princípio sintáctico
aparentemente incapaz de dar conta de frases como (24). Zribi-Hertz
(1985:60) propõe em alternativa um modelo funcional, onde a
elipse é tida como uma busca funcional de economia,
aquilo que chama o princípio de recuperabilidade das
elipses:
(25) Numa posição
estrutural P, aberta à elipse, só se pode
elipsar material redundante.
Como (25) sugere, poder suprimir, dos enunciados realizados,
determinado elemento, parece característico da tendência
do locutor em evitar redundância. A noção de
redundância aqui presente tem a ver com a teoria da
informação, e resume-se à ideia de que, numa
posição estrutural determinada, o grau de
redundância de um elemento é proporcional à sua
probabilidade de ocorrência. Proponho como
ilustração os exemplos seguintes:
(26)
a. O João comprou o livro verde e o [-] vermelho
b. ? O João comprou o livro verde e o [-] antigo
Nestes exemplos de elipse do nome livro, a frase (26b), que me
parece marginal, permite distinguir redundância e
repetição: em (26b) a repetição da
palavra livro é possível mas não
provável. Faz pouco sentido considerar que é a palavra
livro que é obrigatoriamente retomada, já que o
adjectivo antigo implica informação nova e
portanto ausência de redundância, pelo que livro
aqui não é mais provável que retrato ou
vaso. No entanto, na primeira frase, existe simetria perfeita
e portanto material redundante, sendo o nome livro
fácil de restituir.[40]
Baseando-se na distinção funcional entre elipse, que
implica redundância, e categoria vazia, que não implica,
Zribi-Hertz (1985) sugere que a elipse escapa parcialmente à
sintaxe das categorias vazias --embora tenha uma base configuracional
parecida--, já que a possibilidade de alternar livremente
forma lexical e forma vazia depende de factores não-formais,
como a redundância discursiva. Nenhum dos vestígios
previstos pelo ECP --cf. formulação (14)-- parece
corresponder à elipse tal como é definida em (25), na
medida em que, ao contrário das elipses, as categorias vazias
não alternam livremente com material lexical --pelo
contrário, vestígio e antecedente lexical excluem-se
mutuamente na mesma posição estrutural. Sendo assim, a
expressão categoria vazia --em Zribi-Hertz identificada
como vestígio-- não deveria ser vista como
sinónimo de nó vazio, passando antes a designar
uma sub-classe de nó vazio, caracterizada pela impossibilidade
de ser livremente preenchida por material lexical, ao
contrário da elipse, nó vazio lexicalmente
preenchível. A possibilidade de recuperar
informação não tem pois o mesmo alcance para a
elipse e para a categoria vazia (vestígio), já que, no
primeiro caso, essa recuperação depende das
condições de enunciação --trata-se de
recuperar material lexical redundante--, e no segunda depende da
sintaxe.
As frases em (27), contêm um caso de categoria vazia --um
vestígio de NP-- e de elipse respectivamente:
(27)
a. Eu não sei [que livros]i o
João comprou vi na livraria.
b. O João comprou [o livroi do Chomsky] e
[o ei do Kayne]
Como vemos em (27a), o ECP permite dar conta do conteúdo do
vestígio vi, visto que o constituinte movido que
livros rege por antecedente, e portanto identifica o
vestígio vi, e é legitimado --regido
tematicamente-- pelo verbo comprar como seu argumento interno.
No entanto, em (27b), em que o verbo aparece com dois argumentos
coordenados, não existe nenhum movimento, pelo que a
posição ei em (27b) não é
ocupada por nenhum vestígio.[42]
Note-se que na sua conclusão, Zribi-Hertz (1985) sugere uma
aproximação entre a elipse e a
pronominalização: as elipses seriam pro-formas nulas,
que alternam livremente com pro-formas lexicalmente realizadas,
quando disponíveis. O princípio (28) tenta captar o
paralelo entre elipse e pronome nulo:
[43]
(28) Todas as elipses estruturais
zeugmáticas são pro-formas nulas
O ECP, concebido para dar conta da
legitimação de vestígios providos do
traço [+anafórico], deixa aparentemente de fora
as categorias vazias pronominais de tipo pro e PRO,
basicamente engendradas. Para se poder considerar uma teoria geral
que descreva todas as instanciações das categorias
vazias, inclusive as categorias vazias providas do traço
[+pronominal], haverá que reformular a
distinção entre legitimação e
identificação.
Até Rizzi (1986), a TRL assume que as condições
de boa formação da estrutura de constituintes
são sempre condições de
identificação suficientes. No caso das categorias
vazias (vestígios), no entanto, deve distinguir-se entre
legitimação[45]
formal, verificada por meio da regência estrita definida no
ECP, e identificação, verificada por intermédio
da formação de uma cadeia de co-indexação
entre vestígio e antecedente, ou variável e operador.
Rizzi admite, por um lado, que vestígios e variáveis
são ambos legitimados pelo ECP, princípio que estipula
que a legitimação de um vestígio implica
condições de regência estrita, e por outro lado,
que o seu conteúdo --nomeadamente os seus traços
morfológicos-- é recuperado através de uma
cadeia de ligação com o respectivo antecedente --ou
operador.
Mas as propostas de Rizzi vão mais longe e apontam para a
possibilidade de pro ocorrer numa configuração
implicando condições de legitimação e de
identificação que autorizem a sua
distribuição e determinem como o seu conteúdo
é recuperado. Assim, a legitimação de pro
não arbitrário faz-se sob regência por um
conjunto de núcleos especiais, que varia de língua para
língua. A sua identificação requer por seu lado
co-indexação com traços fortes. Neste
caso, a regência é que satisfaz o ECP. Partindo de
observações empíricas sobre o Inglês e o
Italiano, que mostram que a segunda língua admite objectos
nulos com interpretação arbitrária, em contraste
com a primeira, que não admite, Rizzi sugere que esses
elementos nulos são pronomes vazios, sujeitos às
referidas condições de legitimação e
identificação. Neste exemplo de objecto nulo em
Italiano, Rizzi associa a presença de pro a uma
interpretação arbitrária no objecto
directo:[46]
(29) pro Infl vengono
fotografati proarb nudi
Fotografaram-se nus
Rizzi sugere que se reformule e alargue a noção de
pro, de maneira a que seja possível especificar as suas
condições de legitimação formal e
também as condições nas quais o seu
conteúdo é recuperado do contexto foneticamente
realizado. Para o pronome vazio correspondente ao objecto nulo,
propõe que se deve distinguir entre legitimação
e identificação. Baseando-se numa analogia entre PRO e
pro, Rizzi sugere que, como no caso de PRO, que é
legitimado pelo Teorema de PRO e identificado pela Teoria do
Controlo, se pode, do mesmo modo, especificar princípios
formais e condições de identificação
distintos para pro. O princípio em (30), onde o
núcleo Xo pertence a qualquer tipo y,
pode ser considerado como um modelo de legitimação
formal para pro:[48]
(30) pro é regido por
Xoy
Relativamente à identificação de pro,
Rizzi propõe que o seu conteúdo seja recuperado pela
presença de traços de acordo fortes --Inglês
rich agreement specification--, o que é resumido na
convenção seguinte:
(31) X é o núcleo
legitimador de uma ocorrência de pro: então
pro tem a especificação gramatical dos
traços em X co-indexados com ele
O princípio (31) aplica-se em particular ao sujeito nulo, que
é recuperado pela co-indexação entre os
traços fortes de I e pro. De modo geral, o
conteúdo de pro é recuperado por meio da
formação de uma cadeia com o seu antecedente, havendo
em consequência várias possibilidades de identificar
pro: quer por meio de I, no caso do sujeito nulo referencial,
quer por meio de V, no caso do objecto nulo em Italiano, quer por
interpretação arbitrária, no caso de sujeitos
impessoais, quer ainda por defeito, no caso de as
condições precedentes falharem, sendo então
pro um mero pronome expletivo.
A identificação de pro fica assim sujeita a
parametrização, sendo por exemplo conhecido que o
Inglês e o Francês não admitem nem pro
sujeito nulo nem pro expletivo. Vejamos os exemplos seguintes,
em que se prova a ausência de paralelismo entre o
Português e o Francês quanto à ocorrência de
pro sujeito nulo (32.a.b) e à existência de
pro expletivo (33a.b):
(32)
a. Acho que pro é
simpático
b. * Je pense que pro est sympathique
(33)
a (pro) É pena teres vindo
b. *(Il) est bon que tu sois venu
A ideia de legitimação é distinta da de
identificação e resume portanto as
condições sob as quais pro satisfaz o ECP.
De modo geral, o modelo desenvolvido em Rizzi (1986), ao incluir a
possibilidade de distinguir entre legitimação e
identificação, alarga de maneira significativa o leque
das categorias vazias sujeitas ao ECP. Esta distinção
entre legitimação e identificação
é particularmente forte, já que permite fazer
predições: não haverá, por exemplo,
pro referencial --isto é, com
interpretação pessoal-- nas línguas sem
traços fortes, já que, em tal caso, pro
não seria identificável. Poderá também
haver línguas em que pro não-referencial
(expletivo) exista, bastando para isso que seja legitimado por um
núcleo --como I--, e que não existam traços
fortes suficientes para identificar o seu referente. Esta
parametrização de pro é particularmente
importante para a abordagem da elipse nominal, já que em
muitos casos, como veremos, haverá que distinguir entre
várias instanciações referenciais ou não
referenciais de pro elíptico.
Notemos que o modelo introduzido por Rizzi no sentido de distinguir
entre legitimação e identificação dos
elementos nulos, não deixa de lembrar as
condições da gramática clássica sobre os
mecanismos da elipse, como vimos anteriormente. Aprecie-se o
paralelismo entre, por um lado, as duas operações
clássicas de supressão e posterior
restituição dos elementos elípticos, e, por
outro, a distinção entre legitimação e
identificação desenvolvida por Rizzi. Em termos
clássicos, aquilo que foi ocultado tem que ser clarificado, e
só que é clarificável pode ser ocultado, isto
é, a legitimação de um elemento vazio depende da
sua identificação. Em termos informais, a
ocultação eventual de um constituinte tem a ver com a
possibilidade de um núcleo regente o legitimar, e a
identificação desse mesmo constituinte é uma
operação de reinterpretação da frase por
co-indexação entre elementos logicamente ligados.
Como veremos no capítulo 3,
é a ideia de legitimação e
identificação de categorias nulas pronominais que vai
servir de base ao tratamento de Lobeck (1995) de vários casos
de elipse, em particular da elipse do nome. Para Lobeck, o
constituinte vazio característico da elipse relaciona-se com
pro, sendo ambos de tipo [+pronominal] e estando ambos
sujeitos a princípios de legitimação e
identificação. Se a elipse não é o
resultado de um movimento, fica em contrapartida a ideia de que
partilha propriedades com os pronomes. No caso da elipse do nome,
como no exemplo seguinte (Lobeck 1995:23), o elemento vazio aponta
claramente para uma categoria nominal anteriormente realizada,
propriedade típica dos pronomes:
(34) John calls on these students
because he is irritated with [ those
[e]]
O problema ilustrado neste tipo de frase seria resolvido se a elipse
fosse considerada uma forma de pronome vazio: de facto, tem pelo
menos em comum com os pronomes o traço
[-anafórico], e aplica-se-lhe pois o Princípio
B, tal como aos pronomes --um pronome é livre no seu
domínio de ligação. Também como os
pronomes, a elipse pode prescindir de antecedentes
sintácticos, e contentar-se com antecedentes
pragmáticos ou discursivos. A elipse não é nem
derivada por um movimento, nem A'-ligada, por exemplo por um operador
vazio, nem A-ligada a um antecedente na sua própria
oração. A elipse não é pois, segundo o
modelo estabelecido, nem uma variável nem uma anáfora.
No entanto pode ocorrer em enunciados coordenados ou subordinados e
obedece à restrição da anáfora para
trás, propriedades dos pronomes. As elipses são
pois pronomes vazios.
A identidade suposta entre pronomes vazios e elipses deve permitir
concluir que são legitimados do mesmo modo, embora seja
também de prever que difiram no modo como o seu
conteúdo semântico é recuperado. No modelo de
Lobeck, é assim proposto que as elipses são pronomes
vazios basicamente engendrados, e que a sua
identificação depende de determinadas
condições de reconstrução lógica.
Lobeck pretende dar conta não só das categorias vazias
definidas no âmbito do ECP, mas também dos pronomes
vazios resultantes de construção
elíptica[54].
De modo geral, as categorias elípticas são legitimadas
e identificadas segundo as condições em
(35): [55]
(35) Legitimação e
identificação de pro
Um pronominal vazio não arbitrário deve ser
estritamente regido por núcleo, e regido por um X0
especificado por traços fortes.
Esta (con)fusão entre categorias vazias e categorias
elípticas marca uma importante mudança de perspectiva
relativamente ao ECP. Neste último, como vimos, traços
co-indexados são o meio pelo qual o conteúdo
referencial de um NP nulo é recuperado. Para Lobeck, pelo
contrário, um princípio como (35) aplica-se de maneira
uniforme a todo o tipo de categoria vazia --referencial ou não
referencial--, e define em especial o modo como os nós
ocultos elípticos são tornados visíveis a
nível interpretativo. Sendo assim, o ECP evolui de forma a
poder dar conta indistintamente, por um lado, das anáforas
nulas --os vestígios--, e, por outro, dos pronominais nulos de
tipo pro.
Do que antecede, podemos concluir
que houve uma evolução nítida do conceito de
categoria vazia. Se, nas primeiras versões --Chomsky (1981)--,
o ECP inclui os vestígios e PRO, no modelo das
Barreiras, Chomsky (1986a) impõe que este
princípio se reduza aos vestígios e às
variáveis, excluindo os pronomes nulos de tipo pro. A
distinção entre legitimação e
identificação de categorias vazias --Rizzi (1986)--
permite no entanto reconsiderar a existência de categorias
vazias pronominais e alargar o ECP aos casos de elipse,
presumivelmente nós pronominais vazios.
Podemos considerar que uma definição da elipse é
possível. Trata-se de uma categoria vazia --não
foneticamente realizada-- que crucialmente implica as duas
características seguintes: ocorre directamente na
representação sintáctica --é basicamente
engendrada e não o resultado de um movimento em Estrutura-S--,
e o seu conteúdo é determinado a nível da FL.
Destas observações, conclui-se que a elipse está
presente em todos os níveis de representação. Do
ponto de vista da estrutura dos constituintes elípticos,
devemos inferir que uma categoria elíptica deve ser a
projecção em termos de X-barra de um constituinte sem
realização fonética. Do ponto de vista
descritivo, as observações permitem a seguinte
generalização: a elipse só pode ser
convenientemente integrada no modelo das categorias vazias se for
assimilada a um constituinte pronominal.