1.3.Algumas perspectivas sobre o tratamento formal da elipse

A questão central que se levanta nesta secção é de saber se a elipse em geral, que corresponde a determinado nó estrutural desprovido de material fonético, pode ser reduzida a uma das categorias vazias apresentadas na tipologia (8). Por outro lado, se se optar por integrar as categorias elípticas no conjunto das categorias vazias, devemos então perguntar se o ECP, tal como é formulado em (14), é capaz de legitimar outras categorias vazias que presumivelmente não resultam de nenhum movimento

1.3.1.Elipse e redundância

Zribi-Hertz (1985), ao analisar o exemplo seguinte (p.58):

(24) Je choisis toujours Cuckori, car Marie adore [-]i


considera que tal frase levanta alguns problemas para a identificação da posição vazia como elipse ou como categoria vazia: esta posição, representando o objecto, é uma posição argumental, regida tematicamente pelo verbo, pelo que o vestígio satisfaz as condições de legitimação do ECP. No entanto, o seu conteúdo referencial --aqui assinalado por co-indexação-- levanta dúvidas, na medida em que o antecedente lexical se situa fora do CP local, encontrando-se na oração principal como argumento do verbo choisir. Existe intuitivamente uma relação de co-referência entre a posição vazia e determinado constituinte anterior, mas essa relação não é o resultado de um movimento. Não há qualquer cadeia argumental, de que a posição vazia seria a origem. A posição vazia em (24) parece antes ser uma posição basicamente engendrada, e é plausível assumir que não é preenchida em Sintaxe de maneira a evitar alguma redundância. Sendo assim, a ausência de objecto do verbo adorer é uma elipse, e não uma categoria vazia, se por categoria vazia se entender as que são contempladas no módulo de Chomsky (1982,1986) em (8). Observe-se que a frase é boa, uma vez que o locutor de alguma maneira consegue restituir ao complemento subcategorizado a identidade que lhe falta
[37].
O exemplo (24) sugere que a elipse de alguma forma seria independente do conceito de categoria vazia, princípio sintáctico aparentemente incapaz de dar conta de frases como (24). Zribi-Hertz (1985:60) propõe em alternativa um modelo funcional, onde a elipse é tida como uma busca funcional de economia, aquilo que chama o princípio de recuperabilidade das elipses:

(25) Numa posição estrutural P, aberta à elipse, só se pode elipsar material redundante.


Como (25) sugere, poder suprimir, dos enunciados realizados, determinado elemento, parece característico da tendência do locutor em evitar redundância. A noção de redundância aqui presente tem a ver com a teoria da informação, e resume-se à ideia de que, numa posição estrutural determinada, o grau de redundância de um elemento é proporcional à sua probabilidade de ocorrência. Proponho como ilustração os exemplos seguintes:

(26)
a. O João comprou o livro verde e o [-] vermelho
b. ? O João comprou o livro verde e o [-] antigo


Nestes exemplos de elipse do nome livro, a frase (26b), que me parece marginal, permite distinguir redundância e repetição: em (26b) a repetição da palavra livro é possível mas não provável. Faz pouco sentido considerar que é a palavra livro que é obrigatoriamente retomada, já que o adjectivo antigo implica informação nova e portanto ausência de redundância, pelo que livro aqui não é mais provável que retrato ou vaso. No entanto, na primeira frase, existe simetria perfeita e portanto material redundante, sendo o nome livro fácil de restituir.
[40]
Baseando-se na distinção funcional entre elipse, que implica redundância, e categoria vazia, que não implica, Zribi-Hertz (1985) sugere que a elipse escapa parcialmente à sintaxe das categorias vazias --embora tenha uma base configuracional parecida--, já que a possibilidade de alternar livremente forma lexical e forma vazia depende de factores não-formais, como a redundância discursiva. Nenhum dos vestígios previstos pelo ECP --cf. formulação (14)-- parece corresponder à elipse tal como é definida em (25), na medida em que, ao contrário das elipses, as categorias vazias não alternam livremente com material lexical --pelo contrário, vestígio e antecedente lexical excluem-se mutuamente na mesma posição estrutural. Sendo assim, a expressão categoria vazia --em Zribi-Hertz identificada como vestígio-- não deveria ser vista como sinónimo de nó vazio, passando antes a designar uma sub-classe de nó vazio, caracterizada pela impossibilidade de ser livremente preenchida por material lexical, ao contrário da elipse, nó vazio lexicalmente preenchível. A possibilidade de recuperar informação não tem pois o mesmo alcance para a elipse e para a categoria vazia (vestígio), já que, no primeiro caso, essa recuperação depende das condições de enunciação --trata-se de recuperar material lexical redundante--, e no segunda depende da sintaxe.
As frases em (27), contêm um caso de categoria vazia --um vestígio de NP-- e de elipse respectivamente:

(27)
a. Eu não sei [que livros]i o João comprou vi na livraria.
b. O João comprou [o livroi do Chomsky] e [o ei do Kayne]


Como vemos em (27a), o ECP permite dar conta do conteúdo do vestígio vi, visto que o constituinte movido que livros rege por antecedente, e portanto identifica o vestígio vi, e é legitimado --regido tematicamente-- pelo verbo comprar como seu argumento interno. No entanto, em (27b), em que o verbo aparece com dois argumentos coordenados, não existe nenhum movimento, pelo que a posição ei em (27b) não é ocupada por nenhum vestígio.
[42]
Note-se que na sua conclusão, Zribi-Hertz (1985) sugere uma aproximação entre a elipse e a pronominalização: as elipses seriam pro-formas nulas, que alternam livremente com pro-formas lexicalmente realizadas, quando disponíveis. O princípio (28) tenta captar o paralelo entre elipse e pronome nulo:
[43]

(28) Todas as elipses estruturais zeugmáticas são pro-formas nulas


1.3.2.Legitimação e identificação de pro: Rizzi (1986)

O ECP, concebido para dar conta da legitimação de vestígios providos do traço [+anafórico], deixa aparentemente de fora as categorias vazias pronominais de tipo pro e PRO, basicamente engendradas. Para se poder considerar uma teoria geral que descreva todas as instanciações das categorias vazias, inclusive as categorias vazias providas do traço [+pronominal], haverá que reformular a distinção entre legitimação e identificação.
Até Rizzi (1986), a TRL assume que as condições de boa formação da estrutura de constituintes são sempre condições de identificação suficientes. No caso das categorias vazias (vestígios), no entanto, deve distinguir-se entre legitimação
[45] formal, verificada por meio da regência estrita definida no ECP, e identificação, verificada por intermédio da formação de uma cadeia de co-indexação entre vestígio e antecedente, ou variável e operador. Rizzi admite, por um lado, que vestígios e variáveis são ambos legitimados pelo ECP, princípio que estipula que a legitimação de um vestígio implica condições de regência estrita, e por outro lado, que o seu conteúdo --nomeadamente os seus traços morfológicos-- é recuperado através de uma cadeia de ligação com o respectivo antecedente --ou operador.
Mas as propostas de Rizzi vão mais longe e apontam para a possibilidade de pro ocorrer numa configuração implicando condições de legitimação e de identificação que autorizem a sua distribuição e determinem como o seu conteúdo é recuperado. Assim, a legitimação de pro não arbitrário faz-se sob regência por um conjunto de núcleos especiais, que varia de língua para língua. A sua identificação requer por seu lado co-indexação com traços fortes. Neste caso, a regência é que satisfaz o ECP. Partindo de observações empíricas sobre o Inglês e o Italiano, que mostram que a segunda língua admite objectos nulos com interpretação arbitrária, em contraste com a primeira, que não admite, Rizzi sugere que esses elementos nulos são pronomes vazios, sujeitos às referidas condições de legitimação e identificação. Neste exemplo de objecto nulo em Italiano, Rizzi associa a presença de pro a uma interpretação arbitrária no objecto directo:
[46]

(29) pro Infl vengono fotografati proarb nudi
Fotografaram-se nus


Rizzi sugere que se reformule e alargue a noção de pro, de maneira a que seja possível especificar as suas condições de legitimação formal e também as condições nas quais o seu conteúdo é recuperado do contexto foneticamente realizado. Para o pronome vazio correspondente ao objecto nulo, propõe que se deve distinguir entre legitimação e identificação. Baseando-se numa analogia entre PRO e pro, Rizzi sugere que, como no caso de PRO, que é legitimado pelo Teorema de PRO e identificado pela Teoria do Controlo, se pode, do mesmo modo, especificar princípios formais e condições de identificação distintos para pro. O princípio em (30), onde o núcleo Xo pertence a qualquer tipo y, pode ser considerado como um modelo de legitimação formal para pro:
[48]

(30) pro é regido por Xoy


Relativamente à identificação de pro, Rizzi propõe que o seu conteúdo seja recuperado pela presença de traços de acordo fortes --Inglês rich agreement specification--, o que é resumido na convenção seguinte:

(31) X é o núcleo legitimador de uma ocorrência de pro: então pro tem a especificação gramatical dos traços em X co-indexados com ele


O princípio (31) aplica-se em particular ao sujeito nulo, que é recuperado pela co-indexação entre os traços fortes de I e pro. De modo geral, o conteúdo de pro é recuperado por meio da formação de uma cadeia com o seu antecedente, havendo em consequência várias possibilidades de identificar pro: quer por meio de I, no caso do sujeito nulo referencial, quer por meio de V, no caso do objecto nulo em Italiano, quer por interpretação arbitrária, no caso de sujeitos impessoais, quer ainda por defeito, no caso de as condições precedentes falharem, sendo então pro um mero pronome expletivo.
A identificação de pro fica assim sujeita a parametrização, sendo por exemplo conhecido que o Inglês e o Francês não admitem nem pro sujeito nulo nem pro expletivo. Vejamos os exemplos seguintes, em que se prova a ausência de paralelismo entre o Português e o Francês quanto à ocorrência de pro sujeito nulo (32.a.b) e à existência de pro expletivo (33a.b):

(32)

a. Acho que pro é simpático
b. * Je pense que pro est sympathique


(33)
a (pro) É pena teres vindo
b. *(Il) est bon que tu sois venu


A ideia de legitimação é distinta da de identificação e resume portanto as condições sob as quais pro satisfaz o ECP.
De modo geral, o modelo desenvolvido em Rizzi (1986), ao incluir a possibilidade de distinguir entre legitimação e identificação, alarga de maneira significativa o leque das categorias vazias sujeitas ao ECP. Esta distinção entre legitimação e identificação é particularmente forte, já que permite fazer predições: não haverá, por exemplo, pro referencial --isto é, com interpretação pessoal-- nas línguas sem traços fortes, já que, em tal caso, pro não seria identificável. Poderá também haver línguas em que pro não-referencial (expletivo) exista, bastando para isso que seja legitimado por um núcleo --como I--, e que não existam traços fortes suficientes para identificar o seu referente. Esta parametrização de pro é particularmente importante para a abordagem da elipse nominal, já que em muitos casos, como veremos, haverá que distinguir entre várias instanciações referenciais ou não referenciais de pro elíptico.
Notemos que o modelo introduzido por Rizzi no sentido de distinguir entre legitimação e identificação dos elementos nulos, não deixa de lembrar as condições da gramática clássica sobre os mecanismos da elipse, como vimos anteriormente. Aprecie-se o paralelismo entre, por um lado, as duas operações clássicas de supressão e posterior restituição dos elementos elípticos, e, por outro, a distinção entre legitimação e identificação desenvolvida por Rizzi. Em termos clássicos, aquilo que foi ocultado tem que ser clarificado, e só que é clarificável pode ser ocultado, isto é, a legitimação de um elemento vazio depende da sua identificação. Em termos informais, a ocultação eventual de um constituinte tem a ver com a possibilidade de um núcleo regente o legitimar, e a identificação desse mesmo constituinte é uma operação de reinterpretação da frase por co-indexação entre elementos logicamente ligados.

1.3.3.Legitimação e identificação das categorias elípticas: Lobeck (1995)

Como veremos no capítulo 3, é a ideia de legitimação e identificação de categorias nulas pronominais que vai servir de base ao tratamento de Lobeck (1995) de vários casos de elipse, em particular da elipse do nome. Para Lobeck, o constituinte vazio característico da elipse relaciona-se com pro, sendo ambos de tipo [+pronominal] e estando ambos sujeitos a princípios de legitimação e identificação. Se a elipse não é o resultado de um movimento, fica em contrapartida a ideia de que partilha propriedades com os pronomes. No caso da elipse do nome, como no exemplo seguinte (Lobeck 1995:23), o elemento vazio aponta claramente para uma categoria nominal anteriormente realizada, propriedade típica dos pronomes:

(34) John calls on these students because he is irritated with [ those [e]]


O problema ilustrado neste tipo de frase seria resolvido se a elipse fosse considerada uma forma de pronome vazio: de facto, tem pelo menos em comum com os pronomes o traço [-anafórico], e aplica-se-lhe pois o Princípio B, tal como aos pronomes --um pronome é livre no seu domínio de ligação. Também como os pronomes, a elipse pode prescindir de antecedentes sintácticos, e contentar-se com antecedentes pragmáticos ou discursivos. A elipse não é nem derivada por um movimento, nem A'-ligada, por exemplo por um operador vazio, nem A-ligada a um antecedente na sua própria oração. A elipse não é pois, segundo o modelo estabelecido, nem uma variável nem uma anáfora. No entanto pode ocorrer em enunciados coordenados ou subordinados e obedece à restrição da anáfora para trás, propriedades dos pronomes. As elipses são pois pronomes vazios.
A identidade suposta entre pronomes vazios e elipses deve permitir concluir que são legitimados do mesmo modo, embora seja também de prever que difiram no modo como o seu conteúdo semântico é recuperado. No modelo de Lobeck, é assim proposto que as elipses são pronomes vazios basicamente engendrados, e que a sua identificação depende de determinadas condições de reconstrução lógica. Lobeck pretende dar conta não só das categorias vazias definidas no âmbito do ECP, mas também dos pronomes vazios resultantes de construção elíptica
[54]. De modo geral, as categorias elípticas são legitimadas e identificadas segundo as condições em (35): [55]

(35) Legitimação e identificação de pro
Um pronominal vazio não arbitrário deve ser estritamente regido por núcleo, e regido por um X0 especificado por traços fortes.

Esta (con)fusão entre categorias vazias e categorias elípticas marca uma importante mudança de perspectiva relativamente ao ECP. Neste último, como vimos, traços co-indexados são o meio pelo qual o conteúdo referencial de um NP nulo é recuperado. Para Lobeck, pelo contrário, um princípio como (35) aplica-se de maneira uniforme a todo o tipo de categoria vazia --referencial ou não referencial--, e define em especial o modo como os nós ocultos elípticos são tornados visíveis a nível interpretativo. Sendo assim, o ECP evolui de forma a poder dar conta indistintamente, por um lado, das anáforas nulas --os vestígios--, e, por outro, dos pronominais nulos de tipo pro.



1.4.Conclusão

Do que antecede, podemos concluir que houve uma evolução nítida do conceito de categoria vazia. Se, nas primeiras versões --Chomsky (1981)--, o ECP inclui os vestígios e PRO, no modelo das Barreiras, Chomsky (1986a) impõe que este princípio se reduza aos vestígios e às variáveis, excluindo os pronomes nulos de tipo pro. A distinção entre legitimação e identificação de categorias vazias --Rizzi (1986)-- permite no entanto reconsiderar a existência de categorias vazias pronominais e alargar o ECP aos casos de elipse, presumivelmente nós pronominais vazios.
Podemos considerar que uma definição da elipse é possível. Trata-se de uma categoria vazia --não foneticamente realizada-- que crucialmente implica as duas características seguintes: ocorre directamente na representação sintáctica --é basicamente engendrada e não o resultado de um movimento em Estrutura-S--, e o seu conteúdo é determinado a nível da FL. Destas observações, conclui-se que a elipse está presente em todos os níveis de representação. Do ponto de vista da estrutura dos constituintes elípticos, devemos inferir que uma categoria elíptica deve ser a projecção em termos de X-barra de um constituinte sem realização fonética. Do ponto de vista descritivo, as observações permitem a seguinte generalização: a elipse só pode ser convenientemente integrada no modelo das categorias vazias se for assimilada a um constituinte pronominal.

 

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