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Entusiasmado com a auto-referenciação, Hofstadter
passa sem prevenir para outras frases que já têm pouco de
auto-referencial. Há uma que me transtorna profundamente. Diz assim: “dá resultado falso quando junto à sua citação.” dá resultado falso
quando junto à sua citação. Durante muito tempo olhei para esta frase sem
descortinar a ponta por onde lhe devia pegar. Num dado momento, talvez
por ter dado mais atenção ao que Hofstadter escreve sobre ela, tive um
revelação e entendi-a. No dia seguinte voltei a lê-la, e estava tão
opaca como antes da iluminação. E tem andado assim, ora cá ora lá,
ao sabor da temperatura ambiente ou da fase em que está a lua. Recorda-me a seguinte imagem de Escher, chamada
“Côncavo – Convexo”.
Os efeitos encurvados que estão no fundo da imagem, junto às figuras que trepam pelas escadas de mão, e o que está no meio destes, com os lagartos, pregam-me partidas. Uns dias vejo-os convexos, outros dias vejo-os côncavos. O mesmo acontece à roseta que está por cima do efeito central, junto à figura sentada com os braços nos joelhos: umas vezes é uma concavidade num chão, outras vezes uma saliência num tecto. Nunca sei prever o que vou avistar quando olho para a imagem. Passa-se o mesmo com a tal frase, umas vezes
entendo-a, outras vezes não. A astúcia que me permite dar-lhe tino
quando ela decide não o ter, começa por recorrer ao paradoxo de Epimenides. Este senhor foi o tal que afirmou
peremptoriamente: “Todos os Cretenses são mentirosos”. Ora acontecia que Epimenides era de Creta, e logo, de acordo com a sua
própria declaração, um refinado aldrabão. De onde se inferia que
afinal os Cretenses eram gente de bem, sinceros e verdadeiros, e logo o
mesmo acontecia com Epimenides, e por aí fora, num descalabro paradoxal
sem fim. Para apreender o comportamento da enigmática
frase, dá-me jeito recordar o poder que as modestas aspas detêm no
reino da sintaxe. Exemplo: a frase “Três vezes dois não
é seis” é obviamente ignorante, e não merece por isso
a nossa consideração. Contudo, umas aspas aqui e outras ali, fazem um
milagre: “ ”Três vezes dois” não é “seis”
” já não é uma idiotice, pelo contrário, é uma verdade incontestável.
O que se passou? As aspas criaram entidades novas, feitas de palavras
que perderam o seu sentido autónomo. Seis é a versão extensa de um número,
“seis” é o agrupamento das letras s, e, i,
s. “dá resultado falso quando junto
à sua citação”, escrito assim, reclama que façamos o que ela
estipula, isto é, que a juntemos à sua citação, para vermos o que
acontece. Começa assim por bulir connosco, ao forçar-nos a criar a
frase “dá
resultado falso quando junto à sua citação.” dá resultado falso
quando junto à sua citação.. A frase duplica-se a si própria, o que não é
um bom sinal. Mas enfim! A parte final da frase duplicada afiança que o
bloco entre aspas dá resultado falso. O que significa que não
acontecerá que o que quer que seja que o bloco promete. Então, porque
o bloco diz “dá resultado falso ...”,
nós sabemos que na realidade, o resultado será verdadeiro . Mas
nesse caso, .... novo descalabro paradoxal sem fim, à la Epimenides.
Claro, não é? É, mas daqui a pouco, quando olhar novamente, não
intuo nada do que lá está e tenho que refazer o raciocínio. Serão justificadas as letras todas que usei para
descrever a minha relação pessoal com esta frase? Possivelmente, para
muitas pessoas, a frase tem sempre um significado claro, intuitivo (o
que eu lhe atribuí, ou outro), e o que não faz sentido é o meu
discurso à volta dela. Para outras pessoas, nem a frase nem a importância
que eu lhe dou fazem jamais qualquer sentido. Tenho alguma inveja dessas
percepções inequívocas. Mas divirto-me com este conjunto de símbolos
cujo significado vai e vem.
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