Imagens da leitura / leitura das imagens:

a propósito de A ilha dos Pássaros Doidos de Clara Pinto Correia

 

 

RESUMO

 

A comunicação cujo resumo a seguir se apresenta faz parte de um projecto de análise global de uma obra – A Ilha dos Pássaros Doidos – nas suas vertentes linguística e imagética, pelo que foi pedida colaboração a um especialista na área das artes plásticas com o objectivo de proceder a uma “leitura das imagens” do livro. Neste caso, o resumo apresentado apenas se refere à mensagem verbal.

 

A ideia que orienta a escrita e condiciona a leitura de A Ilha dos Pássaros Doidos (1994), de Clara Pinto Correia, tem um fundo claramente pedagógico, ligado à promoção do ambiente e à sua conservação. O texto está orientado para a construção de um conjunto de imagens que vão sendo insistentemente reforçadas com vista à veiculação das mensagens acima referidas. As mais recorrentes dizem respeito à Ciência, à Natureza e ao Homem (incluindo aqui a Criança, implicitamente presente sob a forma de narratário e destinatário do texto).

Com a aparência de um conto de fadas, recria-se um acontecimento real preciso, ocorrido num momento específico, cujas consequências ainda hoje estão a ser sentidas. Falando concretamente da acção negativa dos homens na extinção de uma espécie animal, tenta alertar-se para outras extinções de espécies animais, educando para a preservação do ambiente. É evidente, por isso, o cariz pedagógico desta narrativa, que abrange sobretudo os domínios da Ciência (Biologia), mas que, neste caso, se entende também à História e à Geografia. Estas, sobretudo a primeira, são imagens que se repetem insistentemente ao longo do conto, de forma a aproximar conceitos à partida distantes do universo infantil.

No conto, a imagem do Homem, criada a partir dos comportamentos que vão sendo descritos, é profundamente negativa. Os homens surgem como verdadeiros predadores, com características maléficas e diabólicas, encarnando o mal nas suas várias dimensões. Da Natureza, pelo contrário, é apresentada uma imagem paradisíaca, de harmonia edénica e é configurada como vítima passiva da maldade humana. Esta apresentação, bem diferenciada e marcada, visivelmente maniqueista, condiciona a leitura e, sobretudo, a interpretação infantil, na definição de dois universos claramente distintos – o dos bons e o dos maus – sendo o primeiro o da Natureza e o segundo o dos Homens. Veja-se também a oposição de práticas da espécie animal e da humana, conotando positivamente a primeira (inocência, passividade, tranquilidade) e negativamente a segunda (medo, desconfiança, morte). Excluídas quaisquer justificações, o leitor só pode concluir numa direcção - a condenação dos homens e a necessidade de evitar a repetição de acontecimentos semelhantes.

A conclusão não se faz esperar e, tal como já fora repetidamente anunciado, prende-se com o desaparecimento definitivo da ave e inclusivamente da sua imagem. É o seu aniquilamento total e decisivo. A partir daqui, a história que o narrador se tinha proposto contar termina. Mas não acaba a argumentação e o discurso pedagógico com vista à promoção de atitudes ecológicas por parte dos leitores. Recorrendo insistentemente à exemplificação e à desconstrução dos argumentos daqueles que têm práticas lesivas em relação ao ambiente, o narrador tentará apresentar indicações precisas sobre atitudes concretas a adoptar.

Em conclusão, podemos dizer que estamos em presença de um texto onde um dos objectivos da literatura infantil sai decisivamente desvalorizado em relação ao outro. Assim, mais do que simplesmente divertir (se é que podemos falar de divertimento como uma característica desta narrativa), procura-se explicitamente educar, e fazê-lo numa direcção concreta, a educação ambiental. Ainda que perfeitamente integrado, tanto do ponto de vista da construção como do estilo, no domínio específico da narrativa literária, questionamo-nos, neste caso concreto, se estamos em presença de um texto didáctico ou literário (possivelmente de ambos ou dos dois num só), na medida em que a narrativa apresenta, além da sua história, as suas possibilidades de leitura e de interpretação. Torna-se evidente, também, após a leitura que efectuámos, a possibilidade real e concreta que a literatura infantil proporciona ao nível da manipulação das ideias e dos comportamentos dos seus destinatários preferenciais, muito longe da simplicidade ideológica e até do carácter completamente inócuo que muitos lhe atribuem.


REFERÊNCIA

 

RAMOS, Ana Margarida e LOPES, José Maria (2001): «Imagens da leitura / leitura das imagens: a propósito de "A ilha dos Pássaros Doidos" de Clara Pinto Correia», in VIANA, F. L.; MARTINS, M.; COQUET, E. (coord.): Actas do 2º encontro nacional de investigadores em Leitura, Literatura Infantil e Ilustração, Braga, Centro de Estudos da Criança - Universidade do Minho, pp. 123-144

 

(ISBN: 972-8098-81-2)