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RESUMO
Narrativa pautada pela abertura e
pela polifonia, o novo romance de Clara Pinto Correia, Os
Mensageiros Secundários (2000), caracteriza-se por uma
construção em alternância de diferentes linhas de força,
algumas até antagónicas, que se vão cruzando (às vezes quase
anulando) ao longo do texto.
Romance de intersecções várias, tanto ao nível temático como
estrutural, permite e fomenta leituras múltiplas, motivadas pelo
facto de se tratar de uma narrativa problema, motivadora do
questionamento e da reflexão. Não é, por isto mesmo, estranho
encontrarmos aqui posicionamentos e discussões sobre assuntos tão
variados como as relações humanas, a vida e a morte, a fé e a
religião, o amor, a filosofia e a ciência, a arte e a cultura,
a história, entre outros.
A esta grande variedade temática, fruto da complexidade
estrutural das personagens, cuja vida interior é analisada ao
pormenor, vem também juntar-se uma grande diversidade formal
pelo recurso a estratégias narrativas e estilos muito
diferentes. Não se estranhe, por isso, o bilinguismo do texto, a
co-presença de duas narrativas aparentemente distintas e autónomas
que se intercalam durante todo o romance e cuja origem e explicação
só vamos descobrir no final, a circularidade da diegese, a abundância
e o domínio da intertextualidade, as vozes narrativas distintas,
a riqueza dos estilos, só para enunciar alguns dos exemplos mais
marcantes.
Aliás, atrevemo-nos mesmo a afirmar que a linha de força desta
narrativa se situa exactamente nesta capacidade de articular e
entrecruzar aspectos diferentes (às vezes mesmo opostos) com uma
segurança que não origina grandes rupturas na leitura do texto,
mas que, pelo contrário, abre outras/várias possibilidades de
interpretação e imprime um ritmo de leitura muito particular,
feito de saltos e alternâncias, e incentiva a reflexão ou, pelo
menos, possibilita a instalação da dúvida, mesmo quando as várias
vozes que confluem no texto parecem extraordinariamente seguras
das suas teses.
É por isso que não temos grandes dúvidas em afirmar que
estamos perante um romance em que se encontram e dialogam várias
vozes. São os textos dos folhetos de cordel do século XVIII que
se cruzam com a prosa contemporânea; são também estilos
diferentes que vão desde o dos próprios folhetos de cordel, ao
discurso científico, ao discurso histórico, passando pelo diarístico,
pelo memorístico e chegando ao clara e assumidamente ficcional;
são ainda as duas narrativas de primeira pessoa distintas,
apresentadas em alternância, uma narrada por uma voz masculina e
outra por uma voz feminina.
E não é só o século XX que aparece de alguma forma reflectido
e analisado nas páginas do romance. Há todo um conjunto de
ideias ligadas à História de Portugal que vai ser questionado,
às vezes quase parodiado. Sobretudo a propósito da leitura e
interpretação dos folhetos de cordel, são tratados no texto
factos relativos aos Descobrimentos e às suas implicações; ao
auge e decadência de Portugal e à concepção dos portugueses
como povo eleito e predestinado por Deus para grandes feitos e
também para grandes tragédias (como é o caso do terramoto de
Lisboa de 1 de Novembro de 1755). São inclusivamente os aspectos
ligados ao tremor de terra e às suas interpretações (simbólicas/metafísicas
e científicas) que surgem com mais acutilância durante todo o
texto .
Defendendo a tese de que o aparecimento dos monstros funcionaria
como previsão da desgraça eminente do terramoto, o narrador
apresenta ainda outros textos, tanto de cariz literário como
científico, que reflectem as várias leituras e as várias teses
vindas a público um pouco por toda a Europa, sobretudo em França
e em Inglaterra, resultantes do tremor de terra que, além de
destruir Lisboa e abanar o país, abalou alguns dos pilares mais
sólidos do Iluminismo Europeu, sobretudo a confiança e o
optimismo. O horror e o medo atroz, que se encontram presentes em
muitos dos relatos de cordel do século XVIII transcritos pela
autora, associam-se ao mesmo tipo de sentimentos motivados pela
destruição da capital portuguesa por acção do terramoto.
Também nesta narrativa vamos encontrar o confronto de duas
"religiões" ou, se calhar, de duas formas diferentes
de encarar a realidade e de lidar com o sobrenatural. Decorrentes
da temática de carácter mais espiritual ou divino (e a ela
sempre ligados) estão os aspectos ligados ao Homem - a
vulnerabilidade, o envelhecimento, a morte, o amor, as relações
humanas, o sofrimento... O cruzamento destes factores, com
elementos ligados a questões científicas, volta a apelar para
leituras diferentes, semelhantes, inclusivamente, àquelas que são
avançadas a propósito da leitura dos folhetos ou dos relatos
relativos ao terramoto.
A circularidade da narrativa também vem daqui. O romance cruza
tantos aspectos contraditórios, que o que resulta é sobretudo a
reflexão motivada pela fragilidade da condição humana. A
repetitividade histórica, visível, por exemplo, no caso dos
terramotos, reflecte-se também nas personagens que, após longos
percursos diegéticos, e mesmo que nunca tenham abandonado o
mesmo sítio, acabam por chegar ao local de origem.
A solidão caracteriza, afinal, tudo e todos. A interioridade e a
introspecção também. Restam os "monstros", físicos
e mentais, portugueses e estrangeiros, do século XVIII ou do século XX, a assombrar as vivências de cada uma das personagens,
possivelmente de cada um de nós. Restam os mensageiros secundários
e os seus sinais que nem todos parecem ser capazes de interpretar.
REFERÊNCIA
RAMOS,
Ana Margarida (2004): «Cruzamento de vozes:
da prosa de cordel à narrativa contemporânea - uma
leitura de Os mensageiros secundários
de
Clara Pinto Correia»,
Revista da Universidade de Aveiro - Letras,
nº 19-20, Aveiro, pp.75-83
(ISSN 0870-1547)
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