Acção de formação realizada na Escola EB 2,3 de S. Bernardo, Aveiro, Março de 2000
Acção de formação realizada na Escola Secundária de Pombal, Janeiro de 2005
Pretende-se, neste breve estudo,
situar alguns textos da obra de Sophia de Mello Breyner Andresen no contexto da
literatura de viagens, dando conta das suas principais características e
implicações. A temática da viagem é uma das mais frequentes (e também das
mais antigas) na literatura portuguesa e não só. Para o comprovar, basta que
recordemos textos como a Odisseia de
Homero, a Divina Comédia de Dante, o Dom
Quixote de Cervantes, Os Lusíadas de
Camões, As viagens de Gulliver de
Jonathan Swift, alguns textos dramáticos de Gil Vicente, As viagens na minha terra de Almeida Garrett e mais recentemente
encontramos romances de Saramago, Lobo Antunes, Fernando Campos, Rebordão
Navarro, Vergílio Ferreira, entre muitos outros. Há mesmo quem afirme que a
viagem é um tema omnipresente na literatura, mesmo em textos onde não existe
uma deslocação física da personagem. Aliás, a este respeito, basta que nos
recordemos que a própria actividade de escrita do texto (e a de leitura que lhe
está subjacente) já pode funcionar como uma viagem no universo das palavras.
Convém ainda acrescentar que a
literatura de viagens está fortemente ligada, no caso da literatura portuguesa,
a um contexto histórico-social específico que foi o das grandes navegações e
descobertas dos portugueses, ocorridas sobretudo durante os séculos XV e XVI.
Nesta medida, é natural que os textos relativos a esta época funcionem, ainda
nos dias de hoje, como o grande intertexto da literatura de viagens contemporânea.
Assim, não se pode falar de literatura de viagens sem, de uma forma directa ou
indirecta, aludir à epopeia camoniana, ao texto de Fernão Mendes Pinto, à História
Trágico-Marítima, para referir só três exemplos.
Neste contexto, tanto na poesia
como na prosa desta autora, é possível encontrar referências claras quer a
viagens que implicam uma deslocação física, quer a viagens de índole
espiritual ou metafísico. Aliás, esta autora, sempre que isso lhe é possível,
une muitas vezes esses dois tipos de viagem, atribuindo a este conceito uma nítida
função simbólica.
De
acordo com Chevalier e Gheerbrant[1],
o conceito de "viagem" possui uma significação muito rica, além de
variada. Para o este estudo, interessa reter a ideia de que geralmente a viagem
é entendida como «busca da verdade, da paz, da imortalidade, na procura e na
descoberta dum centro espiritual» (Chevalier / Gheerbrant 1994: 691). Pensa-se
que o desejo de viagem exprime mais uma vontade profunda de mudança interior
ligada à insatisfação do que uma deslocação espacial.
Na literatura universal em geral
e na portuguesa em particular, encontramos, como já vimos, múltiplos exemplos
de viagens que, apesar de não estarem dotadas do simbolismo habitual, são
significativas por conterem em si a ideia de procura da verdade: «através de
todas as literaturas, a viagem simboliza, portanto, uma aventura e uma procura,
quer se trate de um tesouro ou de um simples conhecimento concreto ou
espiritual. Mas esta procura não é mais do que uma busca e, na maior parte das
vezes, uma fuga de si mesmo» (idem, ibidem: 692).
A este respeito vejam-se, por
exemplo, os poemas nos quais encontramos uma mimese do percurso expansionista
português, bem como o conto O Cavaleiro
da Dinamarca, onde é possível vislumbrar, a par da deslocação física do
Cavaleiro, uma outra viagem de peregrinação e de elevação espiritual da
personagem principal do conto.
No conto Saga também encontramos dois tipos diferentes de viagem: as físicas,
efectivamente realizadas, e as sonhadas, aquelas que pertencem ao domínio do
sonho, do desejo e da vontade. Assim, Hans, a personagem viajante por excelência,
além da primeira viagem no sentido Norte/Sul, e de todo um outro grande
conjunto de viagens que realiza, pela costa africana e brasileira, pelo oriente,
mantém-se sempre prisioneiro de uma viagem que não realizou e que é a viagem
de regresso a casa e à terra natal. Seria esta viagem que fecharia o ciclo
aberto pela primeira e traria consigo a paz espiritual do herói. A recusa do
perdão a Hans por parte do pai levam-no a permanecer preso ao seu sonho de
viagens não realizadas que o acompanharão até depois da morte. Podemos
afirmar que Hans, apesar de nunca ter naufragado em nenhuma das suas viagens marítimas,
acabou por naufragar na viagem mais importante de todas – a viagem da Vida –
o que explica a sua última vontade de ser enterrado sob um navio naufragado,
metáfora do seu sonho não realizado.
As viagens estão intimamente ligadas aos vários espaços percorridos pelas personagens e a sua descrição e funcionalidade são determinantes para a mensagem dos textos, tenham eles ou não um referente empírico. O próprio percurso que é feito (geralmente Norte/Sul e Ocidente/Oriente) também é fundamental do ponto de vista simbólico e permite estabelecer pontes e afinidades entre os vários textos. Outro aspecto comum aos vários textos é o facto de os viajantes serem predominantemente personagens masculinas (o que acontece inclusivamente nos textos poéticos), enquanto as personagens femininas são aquelas que geralmente ficam à espera e servem de apoio aos que viajam, o que permite até reconhecer afinidades com a própria literatura medieval galaico-portuguesa, nomeadamente com as cantigas de amigo.
[1]
CHEVALIER, J. e GHEERBRANT, A. (1994): Dicionário
dos Símbolos, Lisboa, Editora Teorema