Acção de formação realizada na Escola Secundária Dr. Serafim Leite, S. João da Madeira, Janeiro de 2001
Pretende-se,
neste breve estudo, levar a cabo uma análise, tão completa quanto as circunstâncias
o permitirem, do conto “Saga” de Sophia de Mello Breyner Andresen,
situando-o no contexto da literatura de viagens, dando conta dos seus principais
temas, motivos e estratégias textuais que os suportam.
A
temática da viagem, como sabemos, é uma das mais frequentes (e também das
mais antigas) na literatura portuguesa e não só. Para o comprovar, basta que
recordemos textos como a Odisseia de Homero, a Divina
Comédia de Dante, o Dom Quixote
de Cervantes, Os Lusíadas de Camões,
As viagens de Gulliver de Jonathan
Swift, alguns textos dramáticos de Gil Vicente, As viagens na minha terra de Almeida Garrett e mais recentemente
encontramos romances de Saramago, Lobo Antunes, Fernando Campos, Rebordão
Navarro, Vergílio Ferreira, entre muitos outros. Há mesmo quem afirme que a
viagem é um tema omnipresente na literatura, mesmo em textos onde não existe
uma deslocação física da personagem. Aliás, a este respeito, basta que nos
recordemos que a própria actividade de escrita do texto (e a de leitura que lhe
está subjacente) já pode funcionar como uma viagem no universo das palavras.
Convém
ainda acrescentar que a literatura de viagens está fortemente ligada, no caso
da literatura portuguesa, a um contexto histórico-social específico que foi o
das grandes navegações e descobertas dos portugueses, ocorridas sobretudo
durante os séculos XV e XVI. Nesta medida, é natural que os textos relativos a
esta época funcionem, ainda nos dias de hoje, como o grande intertexto da
literatura de viagens contemporânea. Assim, não se pode falar de literatura de
viagens sem, de uma forma directa ou indirecta, aludir à epopeia camoniana, ao
texto de Fernão Mendes Pinto, à História
Trágico-Marítima, para referir só três exemplos. Nesta medida, pensamos
que a narrativa que nos propomos analisar também pode ser lida à luz destas
influências, uma vez que as viagens de Hans, a certa altura, percorrem espaços
em tudo semelhantes aos percorridos pelos marinheiros, descobridores e
negociantes portugueses na época áurea dos Descobrimentos.
De
acordo com Chevalier e Gheerbrant[1],
o conceito de "viagem" possui uma significação muito rica, além de
variada. Para o este estudo, interessa reter a ideia de que geralmente a viagem
é entendida como «busca da verdade, da paz, da imortalidade, na procura e na
descoberta dum centro espiritual» (Chevalier / Gheerbrant 1994: 691). Pensa-se
que o desejo de viagem exprime mais uma vontade profunda de mudança interior
ligada à insatisfação do que uma deslocação espacial. Na literatura
universal em geral e na portuguesa em particular, encontramos, como já vimos, múltiplos
exemplos de viagens que, apesar de não estarem dotadas do simbolismo habitual,
são significativas por conterem em si a ideia de procura da verdade: «através
de todas as literaturas, a viagem simboliza, portanto, uma aventura e uma
procura, quer se trate de um tesouro ou de um simples conhecimento concreto ou
espiritual. Mas esta procura não é mais do que uma busca e, na maior parte das
vezes, uma fuga de si mesmo» (idem, ibidem: 692).
No
conto “Saga” também encontramos dois tipos diferentes de viagem: as físicas,
efectivamente realizadas, e as sonhadas, aquelas que pertencem ao domínio do
sonho, do desejo e da vontade. Assim, Hans, a personagem viajante por excelência,
além da primeira viagem no sentido Norte/Sul, e de todo um outro grande
conjunto de viagens que realiza, pela costa africana e brasileira, pelo oriente,
mantém-se sempre prisioneiro de uma viagem que não realizou e que é a viagem
de regresso a casa e à terra natal. Seria esta viagem que fecharia o ciclo
aberto pela primeira e traria consigo a paz espiritual do herói. A recusa do
perdão a Hans por parte do pai levam-no a permanecer preso ao seu sonho de
viagens não realizadas que o acompanharão até depois da morte. Podemos
afirmar que Hans, apesar de nunca ter naufragado em nenhuma das suas viagens marítimas,
acabou por naufragar na viagem mais importante de todas – a viagem da Vida –
o que explica a sua última vontade de ser enterrado sob um navio naufragado,
metáfora do seu sonho não realizado.
As
viagens na obra de Sophia estão intimamente ligadas aos vários espaços
percorridos pelas personagens e a sua descrição e funcionalidade são
determinantes para a mensagem dos textos, tenham eles ou não um referente empírico.
O próprio percurso que é feito (Norte/Sul e Ocidente/Oriente) também é
fundamental do ponto de vista simbólico, como teremos oportunidade de
verificar. Os viajantes são predominantemente personagens masculinas (o que
acontece inclusivamente nos textos poéticos), enquanto as personagens femininas
são aquelas que geralmente ficam à espera e servem de apoio aos que viajam, o
que permite até reconhecer afinidades com a própria literatura medieval
galaico-portuguesa, nomeadamente com as cantigas de amigo.
Subordinadas
a esta temática principal, que ocupa grande relevo na narrativa, estão todos
os outros elementos que a suportam, como é o caso das principais categorias da
narrativas, dos elementos simbólicos que caracterizam a acção e até dos
aspectos estilísticos que enformam a escrita de Sophia.
[1]
CHEVALIER, J. e GHEERBRANT, A. (1994): Dicionário
dos Símbolos, Lisboa, Editora Teorema