Acção de formação realizada na Escola Secundária de José Estêvão, Aveiro, Dezembro de 2000
Tendo
sido tratado literariamente por inúmeros autores, várias correntes e escolas e
por todos os modos literários e, até, artísticos, é curioso como, nos nossos
dias, Camões surge ainda como uma figura susceptível de proporcionar alguma
novidade quando em contacto com os autores contemporâneos. Figura ímpar do
Portugal de Quinhentos, da época de ouro da História nacional e da literatura
portuguesa, acabou por encarnar, melhor do que qualquer outra, o protótipo do
herói português, simultaneamente artista e guerreiro, navegador e amante, génio
e cortesão.
Parece-nos
evidente que Camões será, sem grande dúvida, o autor português mais citado e
também mais recriado da literatura portuguesa. Acreditamos que dificilmente
encontraremos um escritor que, em algum momento, não se lhe refira. Trata-se
indubitavelmente de um topos literário. Mas não é só no que diz
respeito ao texto poético que vamos encontrar referência à vida
e à obra de Luís de Camões.
No
caso dos textos narrativos, encontramos algumas referências ao épico,
sobretudo em narrativas que se propõem reconstituir a época histórica em que
viveu. Aqui, Camões não surge como personagem principal (como acontece em
muitos dos textos dramáticos), mas como elemento que, pertencendo à cor local,
se insere em acções relativamente periféricas.
Aliás,
este é um aspecto que caracteriza as personagens referenciais nos romances históricos
de cariz mais tradicional (ou que seguem mais de perto a herança de Walter
Scott), uma vez que se trata de personagens que, por conterem, logo à partida,
uma carga significativa muito elevada (o leitor já possui deles inúmeras referências
e, consequentemente, determinadas expectativas) o autor, se quiser permanecer
fiel ao tempo histórico retratado, terá de respeitar, não possuindo, por
isso, grande liberdade criativa para trabalhar essas personagens.
De um amplo
conjunto de obras que tínhamos disponíveis, por se inserirem perfeitamente
nesta temática, seleccionámos, por limitações de espaço e de tempo, dois
romances de Fernando Campos, A Casa do Pó (1986) e A Sala
das Perguntas (1998); um de António Lobo Antunes, As Naus (1988); e ainda a obra dramática de José Saramago Que
farei com este livro? (1980). O motivo que esteve na base da nossa incidência
nestes quatro textos, em detrimento de muitos outros e também a justificação
pela opção de trabalhar textos pertencentes a modos literários distintos
prende-se com o facto de, em todos eles, termos a presença, com maior ou menor
destaque, da figura de Luís de Camões e de nos ser proporcionada uma revisitação
da sua personalidade e do seu tempo.
E
se, no caso de As Naus, essa revisitação passa pela desconstrução e pela
parodização da figura e até da actividade literária do épico português,
nas obras de Fernando Campos estamos perante uma tentativa de reconstituição o
mais fiel possível do século XVI e das personalidades que aí tiveram maior
destaque. Contudo, e apesar de estes dois autores apresentarem, numa primeira
impressão, visões completamente antagónicas da figura camoniana, aproximam-se
no relevo que conferem a essa personagem nas suas obras, uma vez que, em nenhum
dos romances anteriormente mencionados, Luís de Camões é personagem
principal.
Nos romances históricos de Fernando Campos, o épico português, personagem referencial secundária, além de ter intervenções mais ou menos decisivas no desenrolar da intriga, funciona, também, como elemento integrante da cor local, aproximando a narrativa do momento histórico retratado.