Acção de formação realizada na Escola EB 2,3/S Professor Doutor Egas Moniz, Avanca, Janeiro de 2000
«Serão
poemas que devem traduzir o que há de vital na relação dos homens com a
terra, o mar e o cosmos. Não haverá fuga ou evasão, mas presença no mundo.
Falamos do real, essa poesia traduzirá o mágico que há na nossa relação com
as coisas, o que é próprio do acto de criar, quando o poeta acede à imanência
do sagrado.»
«E
é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a
buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia. E a busca da justiça é
desde sempre uma coordenada fundamental de toda a obra poética.»
Sophia
de Mello Breyner Andresen
Em
Sophia, encontramos uma filosofia existencial muito própria em que a Natureza
tem uma dimensão particularmente forte. À Natureza estão ligadas as ideias de
pureza, originalidade, perfeição e antiguidade. O objectivo do sujeito poético
(quando nos referimos à obra poética) ou das personagens principais (da obra
narrativa, para crianças ou para adultos) é quase sempre a comunhão
com a Natureza nas suas mais diversas formas. Muitas vezes, a união
perfeita e sublime do homem com a Natureza acontece graças aos sentidos, que
proporcionam uma apropriação dos elementos naturais. É, por isso, comum
encontrar uma preferência por espaços naturais, predominantemente aquáticos
(o destaque vai para os marítimos), mas é também possível observar muitas
referências a jardins e a florestas.
É
o que acontece em O Cavaleiro da Dinamarca. A personagem principal, originária da
floresta, vai mover-se num conjunto de espaços diferentes, numa grande viagem
que funciona como a acção principal, na qual são encaixadas uma série de
outras histórias diferentes. Cada um desses espaços, de forma muito peculiar,
dá conta de uma faceta da humanidade e apresenta-se como local de eleição
para o Cavaleiro. Vamos, por isso, percorrer com ele o caminho simbólico que
vai da Dinamarca (terra natal) à Terra Santa e fazer também o longo percurso
de regresso, passando pelas principais cidades italianas e ainda pelo norte da
Europa.
Assim,
trataremos também da simbologia desta viagem de peregrinação,
feita de um movimento de ida, seguido de um de regresso que anula e encerra o
primeiro. As diferenças entre um e outro são claras e gritantes, como teremos
oportunidade de comprovar. Trata-se ainda de uma viagem de obtenção de
conhecimentos, de descobertas e de elevação espiritual. O enriquecimento do
Cavaleiro acontece a vários níveis e de várias formas: pela descoberta de
novas terras, hábitos e costumes e pelo contacto com outros homens, com outros
conhecimentos e com as suas histórias, fruto de outras realidades.
Ligada
quer ao espaço, quer à viagem, surge a problemática temporal. Também aqui,
vamos encontrar uma circularidade que
acabará por resultar na perfeição da ordem natural das coisas. Assim, à
semelhança das viagens que unem o local de partida e o local de regresso, também
o tempo estabelece a continuidade entre princípio e fim, completando um círculo
e iniciando logo outro.
Outra
questão fulcral no conto em análise é a da religiosidade.
São vários os momentos em que as personagens, sobretudo o Cavaleiro, dão
conta do seu Cristianismo, da sua Fé inabalável e do seu amor a Deus e são
por Ele recompensadas com milagres ou outros acontecimentos que denotam uma
intervenção divina. Esta é, talvez, a chave interpretativa do conto, no qual
Cristianismo (aqui entendido no seu sentido primitivo) e Humanismo dão as mãos
na tentativa da construção de um mundo melhor, para todos os Homens de boa
vontade, onde valha a pena viver. A este aspecto ligam-se também o amor e a noção
de família como valores primordiais na vida do Homem, neste caso do Cavaleiro.
Apesar de ausente durante grande parte da narrativa, a família do Cavaleiro
permanece na sua memória, fazendo-o correr todos os riscos necessários ao
cumprimento da promessa de regresso a casa.
Toda
a narrativa se organiza, em termos simbólicos, à volta de um conjunto de
dicotomias que vão sendo mais ou menos desenvolvidas ao longo do texto e que
permitem traçar um quadro da Humanidade, dos valores essenciais ao Homem e dos
vários percursos possíveis. Essa bipolaridade (também associada à
circularidade da narrativa) está patente nas relações luz/sombra;
Inferno/Paraíso; interior/exterior; ida/volta; ascensão/queda;
feminino/masculino; saúde/doença; fala/silêncio, entre outras.
À
semelhança de outros textos narrativos, bem como de grande parte da sua poesia,
estão aqui presentes os grandes vectores orientadores da poética de Sophia,
ligados à valorização da Natureza, da Arte e do Humanismo como ideais
supremos capazes de conduzir o Homem à reconciliação consigo mesmo e com o
Universo, enfim, ao estado edénico, primitivo e perdido.