A História ao serviço da ficção: o caso da produção narrativa de António Rebordão Navarro

 

 

RESUMO

 

Pretende-se, nesta comunicação, dar conta do sentido da História, bem como dos fins que ela serve, na obra romanesca de António Rebordão Navarro. De uma forma ou de outra, a grande maioria das intrigas construídas por este autor revelam profunda ligação ao tempo histórico que as sustenta. As personagens referenciais e os eventos históricos com existência concreta referidos nos romances funcionam, sobretudo, como suporte de uma acção completa ou predominantemente ficcional, desenvolvida por personagens também elas ficcionais. Podemos até afirmar que a História é, antes de tudo, um cenário privilegiado das obras de Rebordão Navarro, ainda que influencie e até altere o comportamento e a atitude de algumas personagens.

Seja como for, com maior ou menor relevo, com mais ou menos referências, a verdade é que encontramos por parte deste autor uma preocupação com a verosimilhança e com a fidelidade no tratamento romanesco de acontecimentos históricos, visível na localização espácio-temporal dos mesmos, na recriação da cor local e até nas abundantes referências intertextuais que caracterizam a sua obra.

A atenção parece recair naquilo que podemos chamar História portuguesa contemporânea (dos últimos trinta anos), sobretudo em acontecimentos chave para a formação da identidade nacional, como a Revolução de Abril, os seus antecedentes e consequências. Aliás, em O Parque dos Lagartos (1982), podemos mesmo encontrar estes acontecimentos históricos como fazendo parte de um fio narrativo que se cruza com o ficcional e se revela de particular relevo para a compreensão da narrativa. Curiosamente, volta a ser esta época histórica, marcada pela mudança, mas também por alguma agitação e indefinição, que vemos retratada no último romance do autor – Todos os tons da penumbra (2000) – , numa perspectiva original porque revela o sentimento e a actuação (e logo a visão) dos apoiantes do Estado-Novo. Também é possível encontrar, num outro conjunto de textos, elementos históricos que suportam intrigas total ou parcialmente ficcionais que se desenrolam no final do século XIX e durante o século XX. Incluem-se, neste campo, os romances que compõem a trilogia formada por Mesopotâmia (1985), A Praça de Liège (1988) e Parábola do Passeio Alegre (1995), em que a História serve apenas de pano de fundo a uma acção e a personagens ficcionais, bem como Amêndoas, doces, venenos (1998), obra em que ocorre a reconstituição de um episódio factual efectivamente ocorrido no Porto a par da adição de elementos ficcionais que completam a intriga. O romance As Portas do Cerco (1992) merecerá da nossa parte uma atenção especial na medida em que, neste caso, o passado se assume, inclusivamente, como linha de leitura do romance, interferindo e interpenetrando o presente da diegese.

 

REFERÊNCIA

(no prelo)