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Imagens do livro na Literatura para a Infância Portuguesa Contemporânea
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RESUMO
Partindo da leitura de um conjunto limitado de textos de literatura para a infância publicados nos últimos anos, pretende-se proceder a uma reflexão sobre o modo como o livro infantil, na sua componente textual e pictórica, trata os motivos do livro, do escritor/leitor, da escrita/leitura e do contador/ouvinte, reconhecendo a sua importância ao nível da construção dos universos de referências factuais e ficcionais das crianças e da sua dimensão formativa na experiência vital dos leitores mais jovens. A leitura, como o próprio acto de contar/escrever histórias, é alvo de tratamento literário e artístico frequente, promovendo o livro e o gosto pela leitura desde muito cedo, num processo de repetição especular favorecedor/naturalizador de determinadas práticas, comportamentos e hábitos. A ilustração, que conheceu um investimento significativo nos últimos anos, faz eco desse apelo à leitura que o texto encara de forma mais ou menos explícita, colocando as personagens em ambientes repletos de livros e de leitores (infantis e adultos), como acontece em A Menina Gigante[1]. A escrita de histórias para crianças e a reflexão do narrador sobre a sua (in)capacidade de as contar é de tal forma insistente na abertura e no encerramento do conto de Saramago, A maior flor do mundo[2], que influencia o ilustrador ao ponto de este o incluir na ilustração, assim como as suas leituras, a sua biblioteca privada e as personagens que a integram, numa clara recriação de um momento de intimidade que não costuma ser dado a conhecer ao público leitor. A necessidade da leitura e das histórias que os livros contêm apresenta-se mesmo como tema central da narrativa no conto de J. Eduardo Agualusa[3] «Sábios como camelos». Este texto revisita e, em certa medida, parodia noções mais ou menos comuns e estereotipadas, recriando uma narrativa em que o acto de “devorar” literalmente algumas centenas de livros atribui a determinados animais a capacidade de falar e ainda a sabedoria necessária ao acto de contar histórias. De meros transportadores de livros, numa configuração particular e insólita de biblioteca itinerante, os camelos transformam-se em contadores das histórias que ingeriram e que reproduzem e recriam para prazer do seu ouvinte, o Grão-Vizir. Assim, a biblioteca e o livro parecem surgir, nestes exemplos concretos, mas também em muitos outros textos, com relativa frequência, como espaços privilegiados da narrativa de recepção infantil, configurando um universo textual particular em que a meta-literatura, além da intertextualidade e da própria mise em abîme, se configura como estratégia cada vez mais assídua, num “fechamento” (ou auto-reflexão), sobre o qual importa reflectir, do livro sobre si próprio.
[1] MARMELO, Manuel Jorge e MARMELO, Maria Miguel (2003): A Menina Gigante, Porto, Campo das Letras. [2] SARAMAGO, José (2001): A Maior Flor do Mundo, Lisboa, Caminho. [3] AGUALUSA, José Eduardo (2000): «Sábios como camelos» in Estranhões e Bizarrocos, Lisboa, Publicações Dom Quixote
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