Marcas da tradição oral na prosa de cordel portuguesa do século XVIII

 

 

RESUMO

 

Pretende-se, neste estudo, reflectir sobre as marcas da tradição oral na leitura de alguns folhetos em prosa da literatura de cordel portuguesa do século XVIII, relativos à temática da monstruosidade. A literatura de cordel, qualificada por Zumthor[1] como pertencendo a uma civilização que designa como da “oralidade mista”, tem sido alvo de estudos que salientam este seu carácter híbrido, uma vez que se situa «na charneira de dois universos, ela oferece uma simbiose do oral e do escrito» (Boyer, s/data: 55) como é o caso, entre outros, de Bollème e Andriès.

A presença de uma matriz oral não só condiciona a escrita destes textos, no que aos temas – maioritariamente ligados à acção – e à forma diz respeito, no uso de fórmulas e padronizações que podem surgir a vários níveis (temáticos, formais, fónicos, rítmicos e outros), clichés, estruturas paralelísticas e rítmicas, estruturas aditivas, modelos narrativos mais ou menos rígidos, epítetos, repetições, como tem implicações ao nível da leitura que deles é realizada, principalmente “intensiva”, muitas vezes “oralizada”, frequentemente popular. Além disso, contribui ainda para a conotação deste tipo de práticas literárias e editoriais com a “marginalidade” do universo literário ou, pelo menos, com práticas não canónicas da literatura, o que resulta também, em larga medida, de uma visão “escriptocêntrica” (cf. Lemaire) da cultura em geral e da literatura em particular, sobre a qual se pretende reflectir.


[1] Este autor defende ainda que as tradições orais não só desempenharam uma tarefa fundamental na manutenção das sociedades arcaicas, como ainda se revelam essenciais, nos nossos dias, assegurando a sobrevivência de culturas marginais (cf. Zumthor, 1983: 10).

 

REFERÊNCIA

 

(no prelo)