O trabalho que João Gama Oliveira vai desenvolver com o incentivo
abarca duas vertentes interligadas: os padrões de correspondência de
Darwin e Einstein e a frequência de ocorrência dos números na World
Wide Web.
Embora vivendo em épocas históricas distintas Charles Darwin
(1809-1882) e Albert Einstein (1879-1955) foram ambos correspondentes
prolíficos: Darwin enviou (recebeu) pelo menos 7.591 (6.530) cartas
durante a sua vida. O registo de Einstein é ainda mais impressionante:
há evidências de mais de 14.500 (16.200) cartas enviadas (recebidas)
por ele. Antes do aparecimento de meios de comunicação como e-mail ou
fax, a comunidade científica lidava com um extenso universo de cartas,
a principal via para a troca de novas ideias e resultados. Mas eram os
padrões de comunicação nesse tempo de algum modo diferentes da era
corrente do acesso instantâneo, ou foram apenas os meios que mudaram,
mantendo-se a mesma dinâmica global de comunicação? Partindo do registo
da correspondência completa enviada ou recebida pelos dois cientistas,
João Gama Oliveira propõe-se a obter resposta a essa pergunta, após
estudos recentes terem mostrado a existência de um padrão complexo no
caso da comunicação electrónica, onde tanto os tempos decorridos entre
e-mails consecutivos enviados por uma pessoa como os tempos de resposta
seguem distribuições de cauda longa na forma de lei em potência,
contrastando com a distribuição exponencial prevista por modelos
correntes de comportamento humano baseados em processos de Poisson. As
correspondências de Darwin e Einstein são processos dinâmicos tendo
lugar na rede complexa de relações sociais e profissionais de cada um
dos cientistas. O seu estudo tem assim relevância para a teoria de
redes complexas. Pretende-se, no entanto, recorrer à teoria de filas
para modelar a dinâmica temporal da correspondência.
Para além desta vertente, o Doutorando pretende envolver-se também
no estudo da frequência de ocorrência dos números na World Wide Web. A
frequência com que os números ocorrem em documentos humanos é
determinada por dois conjuntos de factores. O primeiro inclui aspectos
naturais dos quais o mais importante é a organização em escalas
múltiplas do Mundo em que vivemos. O segundo contém factores de origem
humana como o nível tecnológico da sociedade, a estrutura das línguas,
sistemas de calendário e sistemas numerais adoptados, história,
tradições culturais e religiosas, psicologia, e muitos outros. Usando
os mecanismos de busca disponíveis, João Gama Oliveira obteve a
frequência de ocorrência de números inteiros na World Wide Web (WWW), a
rede complexa constituída por ligações direccionadas entre documentos
existentes num espaço virtual. No entanto, este estudo, aceite para
publicação, deixou algumas questões em aberto que João Gama Oliveira
pretende agora responder.
João Gama de Oliveira, 26 anos, licenciado em Física pela
Universidade do Porto (2002), nasceu no Porto em 15 de Maio de 1979 e
foi Grant Holder do Centro de Física do Porto (2002), da Universidade
de Aveiro (2002) e da Fundação para a Ciência e Tecnologia (2003). Foi
investigador visitante na Universidade de Notre Dame (Indiana) nos dois
últimos anos e Monitor na Universidade de Aveiro entre 2002 e 2004.
Actualmente, é aluno de Doutoramento em Física na Universidade de
Aveiro e monitor da disciplina «Termodinâmica», no Departamento de
Física da UA. Em Outubro passado, foi publicado na NATURE (uma das mais
prestigiadas revista internacionais de ciência e tecnologia) um dos
seus artigos sobre os hábitos de escrita de cartas de Einstein
(1879-1955) e Darwin (1809-82)
De salientar que a Fundação Calouste Gulbenkian instituiu o
Programa Gulbenkian de Estímulo à Investigação com o objectivo de
estimular entre os mais novos a criatividade e a qualidade na
actividade de investigação. Este Programa distingue, anualmente,
propostas de investigação de grande qualidade em áreas científicas de
elevado potencial e, simultaneamente, apoiará as condições da sua
execução durante o ano subsequente, em Centros de Investigação
portugueses. Aos concorrentes seleccionados pelo Programa Gulbenkian de
Estímulo à Investigação é atribuído um incentivo financeiro total de
€12.500, repartido em duas parcelas: 2.500 euros para o investigador e
10.000 euros para a Instituição de acolhimento suportar os encargos com
a execução da investigação durante o ano subsequente.