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Introdução à Hermenêutica


 

 

Breve entrevista com Rui Magalhães

por Osvaldo Silvestre

 

P.       Nota-se nesta Introdução à Hermenêutica um travo melancólico, por ser a nossa a época da «multiplicação infinita das mediações» (a época de Benjamin, digamos) e, por isso, a época em que a textualidade poética ou a teorização filosófica são «parasitadas» por uma interminável cadeia de discursos. O teu livro, que é mais um elo dessa família parasítica, pretende suscitar no leitor a ansiedade do contacto imediato com o texto, ou a percepção de todas as complicações inerentes a esse contacto?

 

R.       A melancolia não é saudosismo, não é desejo de recuperação. Falas de Benjamin e é certo que nele, a melancolia assume uma dimensão eminentemente equívoca. Veja-se o modo como o seu projecto parasítico por excelência – o de escrever um livro inteiramente constituído por citações – coexiste com a sua teoria da linguagem, a sua crença numa linguagem original.

A melancolia é o sentimento inerente à vivência da alternativa entre multiplicidade e unidade, sobretudo quando se adquire a consciência de que essa oposição, como todas, aliás, não é mais do que uma visão, digamos, paisagística, de uma realidade que só pode subsistir na medida em que vai além da própria alternativa, em que se coloca de um dos lados, mas percebe que a ideia de "lado" é necessariamente tendenciosa, que está sempre ao serviço de uma qualquer estratégia. Opor a coexistência à alternativa, tentar viver e compreender a coexistência é o que gera o espaço da melancolia. Escrever sobre o escrito – e neste caso, aparentemente, ainda mais porque o escrito em questão é já um escrito sobre o escrito – é sempre uma operação absurda, mas absolutamente, inevitável. No entanto, como escrever senão sobre o escrito? Não se escreve nunca sobre coisas, mas sobre coisas representadas, coisas escritas, coisas carregadas de marcas, de incisões, de anúncios. Viver é um acto de parasitagem, a menos que se acredite numa linguagem original, numa vida "autêntica", num contacto imediato e pleno.

Ora, a questão que colocas, em toda a sua absoluta pertinência, insere-se, ainda, num sistema de oposições que supõe, por conseguinte, a alternativa entre a presença e a mediação. O grande paradigma deste modelo, no que à hermenêutica diz respeito, é, certamente, o de Georges Steiner.

Tentando responder mais directamente à tua pergunta, diria que presença e mediação não se excluem, sendo que não se trata aqui, de nenhuma espécie de conciliação, bem pelo contrário. Do que se trata é de reflectir sobre o sentido dessa "presença real" de que fala Steiner. Ler/compreender só pode existir na admissão dessa "presença real". Mas precisa, também, de saber que ela é uma presença eminentemente fragmentada, uma presença que ao mostrar-se, ao apresentar-se, engendra uma imagem de si como coerência e harmonia, que recalca a sua verdadeira história ao engendrar uma outra, invariavelmente cristã e hegeliana. Por isso Nietzsche é incontornável. É ele que denuncia este modo da presença. As "complicações intrínsecas ao contacto" não são algo que o leitor ou o crítico produza (idealmente falando, é óbvio), mas que constituem a história real da presença. Isto não é complicar o acto de leitura, mas, pelo contrário, descomplicá-lo (o que não significa simplificá-lo), torná-lo possível; é substituir a história oficial (que é sempre uma estória) pela verdadeira presença.

Este movimento, no entanto, não se exerce apenas sobre o texto, mas também (e diria: quase indescernivelmente) sobre o leitor. Porque o desejo de verdade da leitura distribui-se, equitativamente, por uma verdade do texto e uma verdade do eu. Tocamos aqui o que se poderia chamar, com algumas precauções, a dimensão epistemológica da hermenêutica. Ou seja: também o eu da leitura/compreensão precisa de assumir a sua fragmentação contra o prazer (Barthes, Foucault) ou o desejo (Deleuze). À busca da origem (continuada e não essencial), corresponde um processo de infinito que desloca o texto, o leitor, e sobretudo o eu-leitor-vivente dos seus lugares pré-determinados, da sua segurança, mesmo quando ela se apresenta como incerteza epistemológica ou hermenêutica.

 

P.       Em todo o caso, a ideia de uma «presença real» como a preconizada por Georges Steiner — a presença real do texto em detrimento da mediação crítica, etc. — não é em si um ersatz de uma outra e decisiva presença fundadora, qual seria a de Deus? E não é a hermenêutica moderna — a que deixou de se definir por referência ao texto bíblico — parte do projecto mais vasto da secularização, vale dizer, do projecto da Crítica?

 

R.       Precisaria de mais espaço do que aquele de que aqui disponho para responder à tua pergunta. Em termos muito simples, diria que a hermenêutica moderna, aquela que, como dizes, deixou de se definir por referência ao texto bíblico, faz, indiscutivelmente, parte do processo de secularização, do projecto crítico moderno. Mas seria preciso interrogar o sentido dessa crítica. Poder-se-ia, a este propósito, lembrar o que diz Deleuze acerca da crítica em Diferença e Repetição; e também os dois Kants descobertos por Foucault no seu célebre texto sobre as Luzes.

Repara: a hermenêutica contemporânea é absolutamente marcada por Heidegger. Ora, Heidegger, apesar do projecto visível em Ser e Tempo, parece-me (pelo menos num certo sentido) longe de um pensamento crítico. Ao mesmo tempo, não podemos identificar secularização e crítica. Com efeito, não deixa de existir uma metafísica da secularização que se manifestou, no século XX, sob formas ontológicas, epistemológicas e linguísticas. A hermenêutica, enquanto Koinè do nosso tempo, constitui uma das expressões desse processo. Ora, não é essa a hermenêutica que me interessa, mas antes uma hermenêutica que se desliga das epocologias e se liga à "arte" de ler (Nietzsche) enquanto esta tenta autonomizar-se em relação a todos os preconceitos, inclusivamente, o preconceito estético. Para mim, falar de hermenêutica significa, no essencial, falar da suspensão de todos os sistemas de unificação (inclusivamente qualquer tipo de metafísica da multiplicidade). A hermenêutica que me interessa é, pois, um tipo de pensamento que se joga no espaço impossível da simultaneidade das imagens e dos fragmentos.

 

P.       Uma «Introdução» à Hermenêutica devolve-nos, em certo sentido, a questão da sua actualidade. Tratando-se de «introdução», seria legítimo entender que sugere algo, digamos, programático, ainda que sustentado por um olhar retrospectivo (um relato 'histórico', tipo Ferraris ou Grondin)? Outra forma afim de colocar a questão: o teu livro é mais um manual de consulta ou um ensaio?

 

R.       Este livro é a tentativa impossível de conciliar o inconciliável.

A noção de "introdução" não deixa de ser profundamente problemática. Lembremo-nos dos casos paradigmáticos de Kant e Hegel acerca da introdução à filosofia. Uma introdução só perderá este carácter problemático se se excluir, voluntária ou ingenuamente, da interrogação acerca de si mesma, isto é, se esquecer as condições de produção, circulação e recepção dos saberes para se limitar a apresentar um corpus teórico como domínio objectivo ou simuladamente objectivo.

No entanto, falar de "programa", seria, neste caso, excessivo. O que há é a tentativa de alargar e, simultaneamente, deslocar a hermenêutica tradicional. É nesse movimento que se deve entender a inclusão de autores como Derrida e, sobretudo, Foucault. Ou seja: tratar o corpus como um corpo que não só está em contínuo desenvolvimento, como, sobretudo, se pluraliza, originando corpos múltiplos e, consequentemente, múltiplas relações, múltiplos universos. É, no fundo, como comecei por dizer, a tentativa – executada nas condições impostas pela natureza da colecção em que o livro se insere e, naturalmente, pelos limites do autor – de conciliar o inconciliável. De resto, para ser uma manual, falta-lhe saber; para ser um ensaio, falta-lhe pensamento.

Para além disto, não consigo – mesmo a este nível aparentemente, anódino – deixar de exercer um certo esforço de suspensão (ou de crítica, se quiseres) da lógica das apresentações. Ao leitor competirá avaliar a lógica da apresentação aqui presente. Diria, no entanto, para responder à tua pergunta, que se trata, talvez, de um quase-ensaio, com um quase-manual dentro, com quase-ensaios dentro.